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O Deus do secreto

10. A tríade harmoniosa da nova vida, Mt 6.1-18
1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles! Doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.
a. No correto exercício da misericórdia evidencia-se a nova vida como serviço da mão perante o próximo
2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita;
4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
b. Na oração correta revela-se a nova vida como serviço da boca perante Deus
5 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
7 E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.
8 Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.
Intercalação: O Pai Nosso
9 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.
11 O pão nosso de cada dia (necessário para a vida) dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;
13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém]a.
14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará;
15 se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.
c. No jejuar correto mostra-se a nova vida como serviço de nossa alma perante sua luta interna
16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Em relação à tradução
a As palavras “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém” encontram-se na coiné e em diversos outros manuscritos. Encontramos essa doxologia também no Didaquê, ou Ensino dos 12 apóstolos, surgido por volta do ano 100. – Nesse louvor a certeza de que nossa oração será atendida é depositada sobre o poder e a glória de Deus. – Em forma poética seja formulada essa doxologia: Seu é o reino, queremos construi-lo. Seu é o poder, podemos confiar nele. Sua é a glória, podemos contemplá-la.
Observação preliminar
A formulação do Pai Nosso foi transmitida duas vezes, uma mais longa em Mateus e outra mais breve em Lucas, onde faltam a 3ª e a 7ª petições, e a interpelação é apenas “Pai”. Isso escandaliza somente a quem tiver fé na letra morta. – Nós cremos que Mateus tem a formulação original (Justificativas no Kommentar zum Matthäus-Evangelium).
1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.
No texto original o v. 1 traz a palavra “justiça”. Ela é usada aqui em sentido abrangente, no sentido de agir correto, fazer algo justo! – Enquanto em 5.22 “justiça” era entendida a partir da posição diante da lei de Moisés (ver o respectivo comentário), a justiça aqui é vista como “atividade”, como “fruto” daquela, em suma, como “a nova vida”.
No v. 2 o texto original não tem: praticar “justiça” (beneficência), mas “dar esmolas”. O significado dessa palavra veremos lá.
Como deve ser entendida a palavra “recompensa”? O termo “recompensa” (“galardão”) ocorre quatro vezes nesses versículos, sempre na mesma formulação, que é dirigida contra os fariseus: “Receberam sua recompensa”. O que faz aqui a palavra “recompensa”? Não havia sido rejeitada há pouco qualquer busca de aplauso meritório das pessoas? A resposta é que a “recompensa de Deus” é algo bem diferente da recompensa que se combate como algo condenável.
Recompensa não pode ser entendida na acepção de “pagamento”, da maneira como existe, p. ex., o pagamento do empregador ao empregado como remuneração por um serviço prestado. Não, não é esse o sentido de recompensa, não como pagamento com base numa relação contratual ou num vínculo empregatício, mas no sentido de uma relação de família, de pai e filho. Recompensa deve ser vista como “reconhecimento” que o pai concede ao seu filho dedicado. Nessa perspectiva, recompensa é “dádiva”, “presente”, “bondade”, cumprimento de compromissos, entrega de promessas dadas. Em suma: “Recompensa celestial” é o abraço do Pai celeste, é “ser presenteado com glórias eternas” (como Deus não nos presentearia tudo com seu Filho?). – Não há sequer como comparar essa “recompensa celestial” com a nossa prática de “boa ação” na terra, porque ultrapassa infinitamente qualquer medida de imaginação. Portanto, jamais pode ser um tipo de contrapartida pelo nosso fazer terreno na “nova vida”. Em Lc 17.10 o Senhor diz: “Quando tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”.
De forma idêntica fica claro na parábola dos talentos (Mt 25.14-30; cf. Lc 19.12-17) que a motivação principal não é a idéia de qualquer tipo de pagamento, e sim a idéia da graça! – Wilhelm Löhe formula-a no conhecido poema:
“Que quero eu? Quero servir!
A quem quero eu servir? Ao Senhor, nos seus miseráveis e pobres.
E qual minha recompensa? A recompensa é que eu posso.”
Nas prédicas sobre Mt 5–7, Lutero diz acerca do pensamento da recompensa: “Deus quer nos tornar firmes através de tal ‘recompensa’. Se o mundo não quer agradecer-lhe e tira a sua honra, bens, corpo e vida, então agarre-se a mim e console-se com a verdade de que eu tenho ainda o céu e tanta coisa dentro dele que poderia muito bem retribuir-lhe tudo e muitas vezes mais do que agora possa lhe ser tirado… Console-se que o reino dos céus está aberto para você, e que então você contemplará visualmente, em eterna glória e felicidade, a Cristo, ao qual você tem agora pela fé.”
Segundo o ensinamento dos rabinos, o judeu demonstra seu amor a Deus através de três desempenhos: beneficência, oração e jejum.
Essas três realizações são acrescentadas às obrigações cultuais judaicas.
Vertido para a linguagem de hoje, poderíamos dizer: Estão sendo caracterizadas aqui três manifestações da “nova vida”. Os efeitos da nova vida caracterizam-se por três perspectivas.
• 1ª perspectiva: Olhar para fora gera o serviço (“esmola”) de nossa mão perante o próximo.
• 2ª perspectiva: Olhar para cima gera o serviço (“oração”) de nossa boca perante Deus.
• 3ª perspectiva: Olhar para dentro gera o serviço (“jejum”) de nossa alma perante suas lutas interiores.
Temos uma tríade! Para fora, para cima e para dentro.
Jesus não está dizendo: “Não pratiquem a beneficência, não orem, não jejuem”, mas: Quando exercerem a misericórdia, quando orarem, quando jejuarem, não procedam como os fariseus costumam proceder. Pois o modo como eles o fazem é condenável!
De que modo, afinal, agiam os fariseus? Eles queriam ser admirados pelas pessoas. Pelas mesmas pessoas que eles no geral desprezavam, queriam agora ser admiradas.
a. No correto exercício da misericórdia evidencia-se a nova vida como serviço da mão perante o próximo
2-4 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
A beneficência judaica costumava dar muitas esmolas. O doador era forçado a essa generosidade ao ter de fazer doações em público. Através desse aspecto de publicidade, cada um se sentia observado. Pelas “ofertas” media-se o grau de religiosidade, ou melhor, o grau de justiça.
Após o culto na sinagoga cada um levantava e dizia qual era a quantia que queria ofertar. Quando havia uma doação muito vultosa, o doador era chamado até o bemá (tribuna) e recebia a honra de poder sentar ao lado do rabino.
O servidor da comunidade tocava, então, uma trombeta, a fim de chamar a atenção dos seres celestiais, porque ali se havia realizado um beneficência especial.
Quanto mais, pois, o fariseu praticava a beneficência, i. é, dava esmolas, tanto maior era o espetáculo, primeiro na sinagoga e depois também na rua.
O Senhor condena intensamente esse espetáculo na sinagoga e na rua. Reprova integralmente o caráter público da misericórdia. A mão esquerda não deve saber o que a direita faz, isso significa que o benfeitor não deve sequer refletir sobre sua ação, não deve de modo algum tornar esse assunto importante.
Uma atitude desinteressada dessas é que caracteriza o autêntico amor (ágape). Somente Deus deve saber o que é dado em segredo. Dessa maneira a beneficência não é realização, não é justiça pelas obras, mas sim entrega e fruto de fé.
Tudo o mais já tem sua recompensa. Mas quem exerce beneficência, i. é, pratica a misericórdia, em segredo, esse receberá retribuição do Pai celeste; o Pai lhe dará recompensa, a saber, recompensa no sentido acima exposto.
A palavra grega para “esmola” é eleémosýne (da qual surgiu o termo alemão Almosen). Não a reproduzimos como diversas traduções tradicionais com “dar esmolas”, mas com praticar “beneficência”. Entretanto, seu sentido é ainda mais amplo. Significa: misericórdia, compaixão, sofrer junto. Com essa palavra é expressado tudo em que o discípulo de Jesus é devedor do seu próximo: consideração, respeito, amor e ajuda, carregá-lo com empatia. Também ao socialmente mais humilde é necessário dedicar todo o amor e consideração. Nesse relacionamento ecoa com força a palavra de Jesus: “Guardai-vos, cuidai da vossa prática de misericórdia”, i. é, do vosso amor autêntico e correta consideração perante o mais humilde e mais fraco!
Neste contexto chamemos brevemente atenção sobre um perigo.
Através de uma ajuda externa, muitas vezes tirada superficialmente da própria abundância, a gente pode se esquivar da verdadeira ajuda, profunda, interna. A palavra original grega entende o “dar esmolas”, “praticar beneficência” como “tentar ajudar a alma e o corpo do próximo através do sacrifício voluntário de si próprio”.
Mais uma coisa seja dita: Em nenhuma área o perigo de enganar-se a si próprio é tão grande, e o perigo de outros motivos entrarem em cena é tão forte, quanto na “prática da beneficência”. Sob uma superfície religiosa, amigável e bondosa podem abrigar-se motivações contrárias à fé. Há algo de terrível nesses motivos ocultos, impuros, que com muita facilidade se introduzem furtivamente no pensar, sentir e querer do eu necessitado de reconhecimento. Constitui a mais sutil das trapaças quando a piedosa “prática da beneficência” se torna um meio para olhar-se a si próprio e nutrir o sentimento: “Eu fiz algo de nobre”. “Eu sou melhor que os outros. Se todos fossem como eu, o mundo seria muito melhor.”
Todo o serviço de amor dos seguidores de Jesus deve ser tão oculto que, quando o Senhor os chamar a si no dia do juízo final (por terem servido aos famintos e miseráveis), eles perguntem surpresos: “Quando foi que vimos o Senhor sofrendo e o servimos?” Nem mais estão conscientes de seus atos de amor, de seus serviços de misericórdia.
b. Na oração correta revela-se a nova vida como serviço da boca perante Deus
5-8 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.
Também a oração deve estar na esfera secreta. Entre os judeus era usual que se realizasse publicamente a oração, assim como a beneficência. Como os horários de oração estavam determinados para de manhã, ao meio-dia e à noite, muitas vezes se via uma pessoa parada na rua orando. Desse modo ela cumpria pontual e fielmente o horário da oração. Nessa circunstância a pessoa não dizia a oração em voz alta (o que era proibido), mas a murmurava.
Jesus repele o caráter público da oração. Ele afirma no v. 6: Quando orares, entra no teu quarto, teu tameion, e, fechada a porta, orarás a teu pai que está em secreto (crypta).
O que é um tameion?
O tameion (= câmara) é o quarto dos suprimentos, é o recinto escondido, secreto, a peça mais íntima da casa, porque os suprimentos precisam estar seguros de ladrões e animais selvagens. Essa câmara de suprimentos é a única peça na casa do agricultor palestino que pode ser trancada. Tampouco possui janelas. Portanto, é duplamente apropriada para ilustrar o sentido do “secreto”, porque ninguém pode entrar nem olhar para dentro. – Com que nitidez é caracterizada, assim, por Jesus, a diferença entre a natureza da oração em contraposição à prática da oração dos fariseus! Quantas vezes o próprio Jesus procurou a solidão da noite para orar.
A pequena câmara de oração, da qual Jesus fala, também pode estar localizada no meio da alvoroço do mundo e no meio das pessoas. Mas estará lá somente quando primeiro temos o sagrado costume de nos retirarmos ao quarto secreto como Jesus aconselhou.
É também excelente a maneira como a palavra do quartinho indica a posição de Deus diante de uma oração em segredo. Deus a recompensará, diz o texto bíblico. No grego o verbo “recompensar” significa “devolver o que se recebeu”, “saldar uma dívida”. Portanto, Deus considera a oração como nosso presente a ele, o qual ele nos devolve, como dívida que ele tem conosco e que ele salda a nós à maneira divina.
Com a palavra da oração em local oculto, porém, Jesus jamais quis dizer que seus discípulos somente poderiam orar num quartinho. Jesus não interditou a oração comunitária na sinagoga. Ele próprio costumava ir à sinagoga.
Além do perigo de “querer aparecer em público com a prática religiosa da oração”, Jesus chama atenção para outro, a saber, o mau costume de amontoar irrefletidamente palavras de oração.
Os exercícios de oração dos judeus naquele tempo estavam num nível tão exagerado, que a incessante repetição das palavras prescritas transformou-se em “tagarelice”: Exigia-se diariamente:
• Recitar três vezes a oração das 18 petições, às 9 da manhã, às 3 da tarde e à noite (Essa oração era dez vezes mais extensa que o Pai Nosso: tinha 970 palavras).
Veja algumas partes da oração das 18 petições, também chamada de tephilá:
“Louvado sejas, Iavé, Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, Deus Altíssimo, fundador do céu e da terra, nosso escudo e escudo de nossos pais. Louvado sejas, Iavé, escudo de Abraão.
Tu és herói valoroso, o eternamente vivo, o vivo que nutre, o que vivifica os mortos. Louvado sejas, Iavé, que faz os mortos tornar à vida.
Santo e terrível é o teu nome, e não há outro Deus além de ti. Louvado sejas, Iavé, Deus santo.
Agrada-te, Iavé, nosso Deus, e mora em Sião, e teus servos em Jerusalém te servirão.
Louvado sejas, Iavé, porque queremos servir-te com temor.
Agradecemos-te, Iavé, nosso Deus, por todos os benefícios da bondade. Louvado sejas, Iavé, a quem convém agradecer.
Derrama a tua paz sobre Israel, teu povo, e abençoa-nos a todos nós. Louvado sejas, Iavé, que és o construtor da paz” etc.
Isso é apenas um extrato bem breve, para que possamos conhecer a natureza dessa grande oração de 18 petições.
• A confissão diária da fé, que devia ser recitada duas vezes. Também é chamada de shemá.
O shemá (confissão de fé), que devia ser proferido pela manhã em pé e à noite deitado, conforme Dt 6.7, era composto de 3 partes, tiradas de Dt 6.4-9, Dt 11.13-21 e Nm 14.37-41. Como revela o conteúdo das três passagens bíblicas citadas, o shemá não quer ser uma oração, e sim uma profissão de fé. É a confissão fundamental de Israel ao Deus único e seus mandamentos. – O shemá era emoldurado com elementos litúrgicos. O shemá matinal tinha duas introduções e duas finalizações. Uma destas introduções dizia, p. ex.: “Verdadeira e segura e firme e permanente e correta e confiável e amada e estimada e valiosa e fértil e gloriosa e justa e agradável e boa e bela é esta oração (o shemá)”, etc. – A recompensa de orar o shemá era que ele servia como um meio de proteção contra os maus espíritos, prolongava a vida da pessoa, garantia para a pessoa o mundo vindouro… Que diremos diante disso? Como neste caso a vida de oração tornou-se algo externo, igual a uma produção realizada!
Quanto à preparação para a oração, é preciso esclarecer o seguinte: Quem ia orar costumava esperar uma hora, depois orar uma hora, e em seguida esperar mais uma hora.
• A repetição das orações de mesa.
• Em qualquer ocasião, a doxologia (exaltação de Deus).
Com “tagarelar” ou orar de modo “irrefletido” ou “irreverente”, Jesus também se refere à idéia de que, com as muitas palavras, Deus seria constrangido a ceder aos desejos dos que oravam. A oração abundante em palavras seria, de certo modo, o método mágico para merecer o céu. É uma idéia pagã, diz o Senhor.
O Senhor condena plena e cabalmente a oração vazia, irrefletida, verborrágica, supersticiosa. Por outro lado, não pensa de modo algum em interditar uma oração longa, fervorosa e confiante, a luta de oração que, em certas circunstâncias, pode durar até uma noite toda (cf. a oração de Jacó até o nascer do sol).
O apóstolo Paulo diz: “Orai cem cessar”. Nisso ele está bem de acordo com o seu Mestre, para que essa oração persistente não seja desvirtuada em religiosidade mística, em fanatismo, mas permaneça sob a constante disciplina do Espírito e aconteça sempre na sobriedade bíblica.
Apesar disso, continua válido que a “oração incessante” é e permanecerá sendo o ofício do cristão autêntico. Pois “orar” não significa apenas dedicar de manhã e à noite alguns minutos à oração, mas traduz que se encontrou uma nova existência, um novo modo de ser, mais precisamente um modo que controla a vida toda. Orar significa que a vida toda tornou-se um diálogo com Deus, um diálogo que perdura até as eternidades e que não sofre nem um segundo de interrupção pela morte.
Quem se serve desse diálogo incessante não recebe sem refletir os acontecimentos todos de sua vida, não os vê como acaso, destino ou infortúnio, mas como presente da mão de Deus, ainda que sejam sofrimento e tristeza. A pessoa que ora recebe tudo de Deus e relaciona tudo com ele, o acontecimento maior e o menor, a bênção espiritual e o pedacinho de pão. Quem não ora sempre vê o lado avesso do tapete e do vitral da igreja, vê tudo incerto e confuso. Mas quem ora vê a estampa maravilhosa do tapete e a figura esplendorosa do vitral. Até no fato incompreensível vê a marca de Deus.
Intercalação: O Pai Nosso
9-15 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia (necessário para a vida) dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém].
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.
A importância singular do Pai Nosso é que Jesus coloca o nome “Pai” como nome originário mais próprio de Deus para seus discípulos e, por conseguinte, para a sua comunidade. Desde então, para ela o nome “Pai” é o primeiro e mais próprio nome de Deus, e não Iavé (Jeová).
Na oração judaica das 18 petições (também chamada “oração das 18 bênçãos”), o nome “Iavé” aparece ao todo 27 vezes, o nome “Deus” 13 vezes, e o nome “Pai” somente 2 vezes, ou seja, bem à margem.
Para os discípulos, o nome “Pai” tornou-se, por intermédio de Jesus, a expressão beatificante de tudo aquilo que a obra salvadora de Jesus consumou. O que os profetas do at expressaram indiretamente, isso se tornou esplêndida consumação em Jesus. No at Deus é chamado de Pai somente 11 vezes, no nt 155 vezes!
“Pai nos céus” significa que estamos radicalmente impedidos de transformar Deus Pai em nosso “paizão”. A expressão “Pai nos céus” combina a bondade, que gera confiança, com a reverência mais sagrada. Qualquer intimidade grotesca e falsa fica de antemão excluída. A confiança no Pai jamais pode tornar-se uma familiaridade irreverente. Pois o Pai nos céus é e permanece santo.
Na boca de Jesus, portanto, a palavra “Pai” expressa o evangelho trazido por ele. No at Deus era o Pai do povo! Israel era seu filho! Jesus vê Deus como Pai do indivíduo. Pela oração, cada um está pessoalmente em contato com Deus, o Pai. Isso é algo grandioso e completamente novo. Por outro lado, o indivíduo ora como membro da comunidade de Jesus. Daí por que a palavra “nosso Pai”. O indivíduo é desviado de si próprio e direcionado exclusivamente para Deus.
As primeiras três petições do Pai Nosso tratam daquilo que Deus quer. Todas as intenções pessoais dos discípulos são inicialmente deixadas de lado. Não se fala da vontade deles nem da bem-aventurança deles, mas da vontade de Deus unicamente!
Desse modo a oração é, desde logo, purificada de toda obstinação e de todo egoísmo da pessoa.
Através do termo “nosso”, “nosso Pai”, dilata-se a visão para além do silencioso quartinho de oração do próprio coração, em direção à comunidade de Cristo, que se estende por todo o globo terrestre. Assim, a oração em secreto torna-se a “oração que cinge o mundo”. Com ela fica banido o perigo de qualquer egoísmo piedoso.
Devemos, pois, orar o Pai Nosso com a mais sagrada reverência e como sacerdotes pelo mundo todo. Por isso ele pode ser proferido em verdade somente pelo “renascido”. Somente o discípulo, somente o filho de Deus pode dizer “Pai”.
O significado dessa preciosa palavra “Pai” talvez possa ser caracterizado melhor, colocando-se o termo “Pai” especialmente diante de cada uma das petições, como segue:
Pai, santifica teu nome, i. é, faz valer o teu nome entre nós e também em mim, completamente, diariamente, a cada hora.
Pai, traz até nós o teu reinado, i. é, ajuda-me para que governes entre nós e também em mim continuamente como rei e Senhor!
Pai, faz acontecer a tua vontade, do mesmo modo como no céu também na terra, i. é, a vontade do Pai precisa acontecer no meu cotidiano incessantemente, não a minha própria vontade. “Não como eu quero, mas como tu queres”, essa é a petição diária do filho ao Pai celeste.
Rebrilham três diamantes reluzentes: a santificação do nome divino, a realização do reinado de Deus e o cumprimento irrestrito da vontade de Deus em mim e na comunidade do Senhor na vida cotidiana. É isso o que o discípulo de Jesus deve rogar com todo fervor.
A glorificação de Deus na vida do discípulo deve ser refletida por meio desses três diamantes.
Colocados à frente os interesses de Deus, seguem-se agora as questões dos próprios discípulos, que se referem à preservação de sua vida na terra!
Novamente o indivíduo está situado diante do Pai no céu, mas ele também é membro da comunidade, por isso a palavra: “nosso” pão diário. Nas petições seguintes: Perdoa a nossa culpa etc.
Na história da pesquisa sobre a versão do texto original surgiu uma questão difícil: deve ser traduzido: “Pai, dá-nos o pão destinado e suficiente para o dia vindouro”, ou “dá-nos o pão destinado e suficiente para este dia”? A decisão caiu em favor da tradução “dá-nos hoje o pão para o dia vindouro”, ou seja, o pão necessário para a existência, o pão diário (cf. 1Tm 6.8).
O teólogo Zahn fez uma referência ao diarista, que é valiosa para a compreensão da quarta petição. O diarista pertence ao grupo de pessoas que precisam “comprar cada dia o pão do padeiro”, ou seja, que não pode, como os abastados, assar pão para a semana inteira. Se nos colocarmos na situação dele e o imaginarmos como aquele que sustenta a família, que precisa viver da mão para a boca, então realmente não será falta de fé quando ele pedir: Dá que eu hoje possa ganhar tanto que eu e os meus amanhã tenhamos o suficiente para comer.
Neste contexto seja mencionada ainda a referência “Tua palavra é lâmpada para meus pés” (Sl 119.105). Isso quer dizer que somente precisa ser iluminado o local em que pisar o meu pé. Tanto a “palavra” quanto o “pão” nos serão presenteados somente passo a passo, dia a dia.
Acrescenta-se a isso o pensamento seguinte: Em seu teor, o Pai Nosso não é de nenhum modo super-espiritual, entusiasta, sobrenatural no sentido de que o pão não caberia numa oração. Ao contrário, seu sentido é bem natural, respectivo às preocupações pelas necessidades diárias e corporais.
Ainda mais: A singela palavra “pão” previne de todo luxo, toda ânsia de consumo, e exorta para a simplicidade e o controle dos desejos. E ainda: na explicação da quarta petição, Lutero considera como incluídas no pão todas as necessidades terrenas, tais como: bom tempo, bom governo, vizinhos fiéis etc.
Em seguida, a oração do Pai Nosso progride do material para o espiritual.
“Dá o pão - perdoa a dívida.” Esse duplo pedido constitui todo o anseio do ser humano. Pois a pessoa é corpo e alma.
A 5ª prece: Perdoa-nos as nossas dívidas! transfere para Deus a relação de credor e devedor. O devedor precisa pagar, esse é um dever incondicional. Se não o fizer, está caracterizada a ofensa ao direito. Na antigüidade punia-se severamente a quebra do direito.
As dívidas perante Deus surgem quando não se dá a ele o que lhe pertence! Dispensar de dívidas constitui uma bondade inacreditável, a qual era extremamente elogiada na Antigüidade.
Um discípulo sempre está diante de Deus como devedor, pois continuamente carece de realizar tudo o que pertence e compete oferecer a Deus.
O perdão divino das dívidas somente é concedido à pessoa que ora quando ela própria também perdoa as dívidas do seu próximo, não apenas 7 vezes, mas 70 vezes 7, ou seja, sempre e sempre de novo.
Por conseguinte, quem ora: “Pai, perdoa-nos as nossas dívidas”, pode trazer esse pedido à presença de Deus apenas quando já perdoou a todos (estão incluídos os não-cristãos, cf. v. 14s) que pecaram contra ele. O texto original está a na voz perfeita: temos perdoado. Quem ainda não perdoou ao outro, não pode proferir o Pai Nosso.
A paciência que suporta e o amor que perdoa dirigem-se não apenas às fraquezas e deficiências dos semelhantes, mas também ao seus atos reprováveis. Somente ao que continuamente perdoa pode ser dado perdão.
O fato de Jesus acrescentar, depois da oração do Pai Nosso, uma explicação nos v. 14s, demonstra a importância que justamente essa petição tinha para ele: Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará. Se, porém, não perdoardes, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. Uma declaração muito séria de Jesus.
Constitui uma tragédia terrível, um mistério assustador, que o Pai no céu, que afinal é onipotente, torna-se quase que impotente quando seu filho, seu discípulo aqui na terra, não quer perdoar.
Contudo, não será um perdão real quando se fizer apenas uma trégua, e a desconfiança, a linha de separação, a ruptura continuarem existindo. A ligação de fé com o Pai celeste somente existirá quando estiver restabelecido o laço de amor com o próximo.
Enquanto o perdão do pecado se refere ao passado, a petição seguinte tem a ver com o futuro.
A 6ª prece: Não nos deixes cair em tentação tem em mente todos os sofrimentos e tentações, que para o cristão se resumem na constatação sempre de novo verdadeira de que “o desejo da carne é contra o Espírito” (Gl 5.17; cf. também Tg 1.13). As reincidentes provações e tentações, que servem para o cristão como provas de afirmação, são exigência da sabedoria pedagógica e da justiça divinas. Porque alegria e dor, tristeza e adversidades, decepções, fome, miséria e perseguição permanentemente trazem dentro de si grandes perigos. Cônscio de sua própria impotência e fraqueza, o filho de Deus volta-se, por isso, ao Pai, pedindo que ele poupe seu filho do poder aliciador de todas essas tentações. Em virtude de sua fidelidade, Deus faz com que a tentação não leve à queda, mas possa ser vencida (1Co 10.13).
A 7ª petição: Livra-nos do mal significa: “Salva-nos para que nós e o mal fiquemos longe um do outro”. O mal é um poder atrás do qual está o maligno, Satanás. Por isso, estar e permanecer separado dele é algo que se torna viável cada dia somente pela mão salvadora e protetora de Deus. “Pai, segura-nos firmes na tua mão”.
Chegamos ao final do “Pai Nosso”. Em nenhuma outra oração, poucas e singelas palavras encerram um conteúdo mais glorioso e precioso que abarca a eternidade. Por isso ele é mais que uma oração. É uma escola superior de oração, na qual aprendemos continuamente como podemos e devemos orar.
c. No jejuar correto mostra-se a nova vida como serviço de nossa alma perante sua luta interna
16-18 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
No tempo de Jesus os judeus observavam dois dias de jejum para todo o povo: o dia da expiação (Lv 16) e o 9º dia do mês abib. Esse último era promovido como recordação das duas destruições do templo (a primeira destruição sob Nabucodonosor em 586 a.C. e a segunda por Tito no ano 70). Agregavam-se ainda jejuns decretados em situações de grandes calamidades, p. ex., na falta de chuvas, em epidemias, guerras, pragas de gafanhotos etc. Nesses casos se definia como dias de jejum a segunda e a quinta-feiras. Aconteciam celebrações públicas na rua. Mais severo era o jejum no dia da expiação: “Quem, no dia da expiação, comer a quantia de uma tâmara, ou beber tanto quanto cabe no seu gole, esse é culpado”. Nesse dia sequer era permitido lavar-se. Também se devia deixar de ungir o corpo. Pelo contrário, as pessoas se aspergiam com cinzas, andavam descalças e adotavam uma expressão facial triste. Queriam parecer insignificantes, no intuito de significar tanto mais perante os outros (Esse é o trocadilho feito no texto original grego com “ocultar – brilhar”). Normalmente o jejum durava do nascer ao pôr do sol. Alguns devotos espontaneamente se encarregavam de outros jejuns particulares. Esse jejum espontâneo era tido em altíssima consideração. Acreditava-se que, com o jejum se conquistaria, junto de Deus um mérito especial, e pensava-se que, através de jejum, se poderia alcançar a suspensão de decisões condenatórias divinas. Por isso se jejuava também pelos pecados do povo, a fim de afastar do povo a ira de Deus! Muitas vezes essa atividade do jejum era feita para chamar a atenção, para concentrar sobre si os olhares das pessoas. Jesus afirma: Um jejum desses é hipocrisia, e por isso condenável! O jejum correto é um pensamento íntimo de arrependimento e um coração curvado diante de Deus. Isso precisa ser exercido com pureza discreta. Para fora não se nota nada. Mas o que jejua revela ao próximo um “ânimo alegre” (cf. Mc 2.18).
O que significa, então, para a situação de hoje aquele jejuar? Existe um jejum espontâneo e um jejum ao qual somos conduzidos. Ambos os tipos de jejum encerram em si os perigos de que Jesus fala aqui.
O jejum voluntário consiste em todo tipo de renúncias que a gente se impôs, p. ex., simplicidade na comida e bebida, simplicidade na vestimenta e moradia, gastar com máxima moderação, desistir de vários prazeres, como um charuto, um copo de vinho, música, arte, vida social etc. Acaso o motivo de um tal jejum e renúncias é que “possamos ofertar mais para os objetivos do reino de Deus”? Ou o motivo é que queremos estabelecer uma lei com essas renúncias e limitações, a qual deve determinar que somente uma vida frugal é uma vida de fé autenticamente bíblica? Se esse último for o caso, o jejum não passa de hipocrisia, de arte teatral. Esse jejum já recebeu sua recompensa. – Ao lado do jejum voluntário há também um jejum que nos é imposto sem nossa participação. É uma “obrigação ao sacrifício”, uma renúncia forçada, é ter de soltar-se à força daquilo que amamos e prezamos, quer seja pela morte de um familiar mais chegado, pela perda dos bens e da pátria amada, quer seja por discórdias matrimoniais, abalos na profissão, perda da saúde, necessidades psíquicas e tensões, quer seja por guerra e fome, epidemias e enfermidades, frio e campo de concentração, denúncia ou perseguição.
Como devem ser suportados o jejum e a renúncia forçadas? Devem transcorrer de tal modo que a expressão do rosto se distorce a ponto de os demais poderem ver a tristeza? Deve-se falar do sofrimento em toda parte, para que as pessoas tenham comiseração? Será que muitas vezes essa “exibição” do sofrimento ou da renúncia a nós impostos não é mero egoísmo? Queremos ser observados, sentir a compaixão, queremos representar algo diante dos outros!
Inversamente, tal comportamento não seria falta de amor, p. ex., quando se tenta deprimir, através do próprio ânimo de luto, a todos os membros da família, aos amigos ou colegas de trabalho? Machucamos ao outro com a nossa própria ferida.
Não há dúvida de que, na convivência entre pessoas, é algo grandioso que um carrega o fardo do outro. E, se o misericordioso Deus concede ao sofredor pessoas próximas como conselheiras, devemos e podemos derramar nosso coração. Então essa revelação das cargas geralmente traz alívio. Mas isso é algo totalmente diverso do “jejuar” descrito acima, usado para aparecer, para atrair os olhares sobre a face retorcida.
Em lugar do “mostrar-se” perante as pessoas, Jesus requer “a cabeça ungida”, o rosto lavado como sinal de libertação. A pessoa tem um olhar alegre mas não obstante jejua ocultamente e leva em silêncio a dor e tristeza perante o Pai celeste, que vê em particular.
Esse comportamento, porém, não seria fingimento? Uma hipocrisia à maneira inversa? Falta de veracidade, que para fora mostra algo bem diferente do que acontece na verdade?
Não, ocultar o jejum e o sofrimento não é hipocrisia e falta de sinceridade, mas disciplina sagrada e compromisso de amor perante o próximo. O que é ocultado diante das pessoas é tanto mais revelado diante do Pai no céu, ele que vê para dentro do que está oculto. Quando a boca sorri e os olhos brilham enquanto no coração se debatem as lutas, a causa da alegria não reside na própria pessoa que jejua e sofre, mas em Deus. O cristão que sofre sabe com certeza inabalável que também o mais sombrio tempo de jejum lhe redunda para o bem (Rm 8.28).
Assim, aprende a jejuar com o rosto radiante, aprende a sofrer com hinos de louvor nos lábios.
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