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Cuidado com o velho fermento

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Introdução

O movimento dos “desigrejados”, que reúne aqueles que carregam em suas bocas frases como “eu sou a igreja” e “não preciso de igreja, só preciso de Cristo”, é sem dúvida um dos grandes e crescentes males que, desde muito tempo, têm sido combatidos por aqueles que são verdadeiros cristãos, verdadeiros discípulos de Cristo.
Entretanto, um mal, tão destrutivo quanto esse movimento, assola há muito tempo a Igreja de Cristo: igrejas compostas por desigrejados, pessoas que vivem sua teologia e religiosidade de forma individualista, mais preocupadas consigo do que com o corpo.
Esse é o retrato de uma igreja doente, uma igreja que embelezou cada um de seus membros de forma individual e esqueceu-se da saúde do corpo. O contexto em que viviam os irmãos da igreja de Corinto não era muito diferente disso.

Contexto geral

Corinto era umas das principais cidades gregas de sua época, sendo geograficamente bem localizada: estava próxima a Atenas, a capital intelectual do mundo, e era banhada por dois mares estratégicos para o comércio marítimo da época, o que a tornava uma cidade riquíssima, pois grande parte do comércio entre Oriente e Ocidente passava por ela, e visitada pelo mundo todo.
Culturalmente, a cidade de Corinto era marcada pela:
Alta intelectualidade: Os corintios enalteciam o conhecimento e tinham prazer em contempla-lo. Iam às praças ouvir os grandes filósofos e pensadores exporem suas ideias, e se tornavam seus partidários e seguidores.
Idolatria: Os coríntios viviam sob a presença de uma pluralidade enorme de deuses, sendo que dois deles possuíam grande influência sobre suas vidas: Afrodite, a deusa do amor, e Apolo, o deus que representava o ideal de beleza masculina. O que nos leva ao terceiro ponto.
Imoralidade sexual: As sacerdotisas de Afrodite eram conhecidas por sua prostituição, tanto durante seus cultos, como junto aos marinheiros e estrangeiros que visitavam a cidade; não só isso, mas a adoração ao deus Apolo levava muitos coríntios a práticas homossexuais. A depravação em Corinto era tão grande que o termo “viver como um coríntio” significou por muito tempo, na Grécia, “viver bêbado e em corrupção moral”.
É esse o contexto e ambiente que Paulo encontra no fim de sua segunda viagem missionária, quando, então, muitos que viviam sob essas práticas se convertem através da pregação do Evangelho de Cristo e a igreja de Corinto é plantada.

Contexto imediato

Paulo inicia sua carta aos coríntios declarando (1Co 1.2) que eles são “santificados em Cristo”, ou seja, separados e distintos do mundo (“hegiasmenois”), através de Cristo, e que sua vida de santidade não era uma opção, já que haviam sido “chamados” para isso, ou seja, haviam recebido uma convocação para a qual não há recusa (“kletois”).
Além disso, Deus havia os enriquecido “em toda a palavra e em todo o conhecimento” (1Co 1.5), bem como em todos os tipos de dons, de modo que nenhum lhes faltava (1Co 1.7).
Entretanto, depois de usar de sua sensibilidade pastoral para reconhecer a obra de Cristo e do Espírito Santo em sas vidas (de modo a encorajá-los a lembrar quem eram agora), Paulo começa a esclarecer-lhes o motivo de sua carta: ele havia sido informado “pelos da casa de Cloe” que a igreja de Corinto estava voltando a ser influenciada pelo mundo, pelos caminhos que outrora trilhara. O mundo estava invadindo a igreja!
Até o capítulo de 1Co 4, Paulo os confronta com o primeiro aspecto em que estavam sendo influenciados pelos caminhos do mundo: a idolatria da intelectualidade. Eles estavam tornando o conhecimento da Palavra que haviam recebido em filosofias e atribuindo-lhe partidos direcionados por diferentes “mestres”.
Com isso, estava havendo divisões na igreja por “invejas” e “contendas” (1Co 3.3). Eles haviam sido enriquecidos no conhecimento da Palavra, mas haviam esquecido que isso era dom de Deus e estavam buscando sobressair-se uns sobre os outros (1Co 4.6) e se tornando cada vez mais soberbos por seu conhecimento (1Co 4.18). Eles estavam convertendo aquilo que deveria dar-lhes o senso de graça da parte de Deus e motivo de orgulho e soberba.
É, então, que Paulo parte para o segundo aspecto, ou consequência do primeiro, em que estavam sendo influenciados pelo mundo: a impureza, ou imoralidade. É então que inicia-se a conhecida exortação do nosso texto.

Divisão do texto

1 Coríntios 5.1 - Uma igreja impura
1 Coríntios 5.2-5 - Uma igreja inchada
1 Coríntios 5.6-8 - Livrando-se do inchaço
1 Coríntios 5.9-13 - Livrando-se da impureza

Uma igreja impura (1Co 5.1)

A primeira declaração de Paulo no capítulo 5 é assustadora: a imoralidade (“porneia”) havia invadido a igreja de tal modo que, até mesmo em uma cidade onde a imoralidade sexual imperava, havia se tornado famosa “por toda parte” (“Geralmente”, ou “holos”).
Havia na igreja de Corinto alguém que mantinha relações sexuais com a mulher de seu próprio pai. Entretanto, a palavra “possuir” (“echein”) tem um sentido muito maior que “apenas” mantimento de relações sexuais, mas traz consigo o sentido de “manter um relacionamento pessoal ou familiar com alguém”, uma espécie de “casamento”.
Quando Paulo diz que não há tal imorallidade “nem mesmo entre os gentios”, está trazendo o julgamento universal de quão abominável é tal relação incestuosa, tanto para os gentios de sua época, quanto para os de hoje. Basta lembrarmos da história incestuosa de Édipo (Sófocles, séc 5 a.C.) e a conclusão a que chega:
“Se eu tivesse morrido mais cedo, não seria o motivo odioso de aflição para meus companheiros e também para mim nesta hora! E jamais eu seria assassino de meu pai e não desposaria a mulher que me pôs no mundo. Mas os deuses desprezam-me agora por ser filho de seres impuros e porque fecundei as entranhas de onde saí!”
Esse indivíduo havia chegado ao um grau de imoralidade que era abominável e odioso até mesmo para o padrão de promiscuidade da cidade de Corinto. Entretanto, não devemos esquecer que esse indivíduo é o exemplo máximo de imoralidade em um igreja doente, contaminada pelo mundo, um igreja impura.

Uma igreja inchada (1Co 5.2-5)

A pergunta que qualquer um pode se fazer quando se depara com os textos início da carta e o nosso texto em questão é a seguinte:
O que levou uma igreja composta por aqueles que foram convocados a uma vida de santidade e viviam separados do mundo a se tornarem uma igreja com tal grau de impureza e tão influenciadas pelo mundo?
A resposta a essa pergunta é justamente o que Paulo nos explica no versículo 2. A igreja de Corinto havia se ensoberbecido com seu conhecimento e com sua variedade de dons ao ponto de esquecerem de cuidar da saúde do corpo. Aos seus próprios olhos, viviam em elevada maturidade e grande avivamento espiritual, mas na verdade, estavam vivendo como crianças imaturas na fé, como carnais, assim como Paulo já havia declarado em 1Co 3.1:
1Coríntios 3.1 (NVI)
Irmãos, não lhes pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo.
Esse é, justamente, o sentido da palavra ensoberbecido no original (“pephysiomenoi”), algo inchado, inflado com ar, algo que parece ter obtido elevado crescimento, mas na verdade, está vazio. Eles estavam tão inchados com seu orgulho, que nem mesmo haviam sentido, nem se entristecido (“lamentar”) pelo pecado abominável que estava em seu meio. Haviam deixado de lado a sensibilidade quanto à saúde do corpo na busca de se sobressaírem em seus conhecimentos e dons em relação aos outros.
Paulo agora, trata a situação particular, para depois tratar a situação geral. Ele traz à tona a sentença que já deveria ter sido tomada se eles estivessem considerando a saúde do corpo e sensívis a ela. Ele se reúne em espírito à toda a assembleia da igreja e declara, em Nome de Jesus Cristo, que aquele indivíduo deveria ser “entregue a Satanás para a destruição da carne”. Aqui, ao dizer “entregue a Satanás”, Paulo traz, de modo formal, aquilo que já havia declarado que os coríntios já deveriam ter feito: “tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou” (v.2).
Ao tirarem o indivíduo da composição do Corpo de Cristo, a Igreja, estariam entregando-o a Satanás que é o príncipe deste mundo. Porém, Paulo deixa claro que há um propósito nisso: aquele indivíduo estava sendo anestesiado quanto ao seu pecado, pois continuava a viver sua religiosidade orgulhosa na comunhão da igreja; só ao ser disciplinado e removido da comunhão da igreja, bem como na condição de eleito de Deus, poderia ter seus olhos abertos quanto ao pecado e dar um fim, ou “destruir”, a vida carnal que levava (v.5), sendo liberto, ou “salvo”, da influência do pecado (v.5). A disciplina é temporal, limitada ao fim da influência carnal, mas os seus frutos são eternos, a salvação no Dia do Senhor.

Livrando-se do inchaço (1Co 5.6-8)

Após tratar o caso específico da saúde espiritual daquele indivíduo, Paulo parte para tratar a saúde espiritual da igreja. Ele inicia identificando a causa raiz de toda a impureza que eles estavam vivendo ao dizer “o orgulho (ou soberba) de vocês não é bom”.
É, então, que ele traz a memória a simbologia que o fermento tinha para o povo de Deus e a aplica ao orgulho e soberba da igreja de Corinto. O Antigo Testamento, em geral traz a figura do fermento como algo que representa o crescimento artificial, malícia e maldade. Da mesma forma que para levedar uma massa, basta uma quantidade mínima de fermento, a soberba é algo tão prejudicial que basta também uma quantidade mínima para prover um crescimento artificial da igreja, repleta de impureza por toda parte.
O fermento da soberba e do orgulho resulta na utilização dos dons de Deus para o crescimento individual, de modo que cada indivíduo cresce, mas o corpo se torna cada vez mais vazio. Esse fermento faz com que se perca os olhos de Cristo e da sua Igreja, não discernindo mais as necessidades do corpo de Cristo, senão, apenas as necessidade do ego de cada um.
Agora, Paulo aplica um dos mais importantes eventos para o povo de Deus ao contexto da igreja de Corinto, as orientações quanto à celebração da Páscoa relatadas em Êxodo 12.14-20:
Êxodo 12.14–20 (NVI)
“Este dia será um memorial que vocês e todos os seus descendentes celebrarão como festa ao Senhor. Celebrem-no como decreto perpétuo. Durante sete dias comam pão sem fermento. No primeiro dia tirem de casa o fermento, porque quem comer qualquer coisa fermentada, do primeiro ao sétimo dia, será eliminado de Israel. Convoquem uma reunião santa no primeiro dia e outra no sétimo. Não façam nenhum trabalho nesses dias, exceto o da preparação da comida para todos. É só o que poderão fazer.
“Celebrem a festa dos pães sem fermento, porque foi nesse mesmo dia que eu tirei os exércitos de vocês do Egito. Celebrem esse dia como decreto perpétuo por todas as suas gerações. No primeiro mês comam pão sem fermento, desde o entardecer do décimo quarto dia até o entardecer do vigésimo primeiro. Durante sete dias vocês não deverão ter fermento em casa. Quem comer qualquer coisa fermentada será eliminado da comunidade de Israel, seja estrangeiro, seja natural da terra. Não comam nada fermentado. Onde quer que morarem, comam apenas pão sem fermento”.
Da mesma forma que os israelitas deveriam tirar o fermento representativo na natureza pecaminosa egípcia de suas casas, Paulo orienta aos coríntios que se livressem (em um sentido de purificação espiritual) do fermento que estava levando-os a uma vida de pecado, de modo a viverem em novidade e sinceridade de vida (“massa nova e sem fermento”).
Paulo agora interpreta a Páscoa à luz da obra de Cristo. O Cordeiro, Jesus Cristo, já havia sido sacrificado, Seu Sangue já havia sido derramado para livrar os eleitos, incluindo os coríntios, da Ira de Deus. Agora, eles deveriam celebrar, não da forma que estavam celebrando, inflando-se no fermento da soberba, mas livrando-se desse fermento e alimentando-se dos pães asmos “da sinceridade e da verdade”.
Um ponto que podemos nos perguntar é:
“O que Paulo quer dizer com fermento velho?”
À luz do versículo 8 do noso texto, podemos nos amparar nas palavras de Jesus em Lc 12.1
Lucas 12.1 (NVI)
Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: “Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia.
O sentido da palavra hipocrisia aqui é justamente “falta de sinceridade em virtude do fingimento de ter qualidades que não se tem”. Aqui vemos Jesus direcionando essa termo aos fariseus, mas é fácil imaginar um vislumbre de Cristo para toda a história do povo de Deus, no passado, presente e futuro. Os fariseus cometiam os mesmos erros do passado do povo de Deus, ao viverem uma pompa religiosa, se exaltando nela e sentindo-se seguros espiritualmente por isso, mas por trás disso, viviam uma vida revestida de impureza e pecado. É o que Paulo exatamente exorta aos coríntios, como quem diz: “vocês estão consumindo exatamente o fermento dos fariseus, o velho fermento que tem enganado muitos na história do povo de Deus.”
Somente livrando-se do fermento velho, do fermento dos fariseus, poderiam viver em sinceridade espiritual, de modo participarem de um verdadeiro crescimento ao estarem sensíveis às necessidades da igreja e trabalharem em prol da saúde do corpo, não mais do benefício próprio.

Livrando-se da impureza (1Co 5.9-13)

Após tratarem a causa raiz que estava levando à impureza da igreja de Corinto, eles deveriam livrar-se da impureza remanescente, a saber, aqueles que deliberadamente continuasse a se alimentar do velho fermento, do fermento dos fariseus que é a hipocrisia, daqueles que, “dizendo-se irmão”, viva em toda sorte de impureza, não só imoralidade, mas quaisquer práticas impuras das quais viviam outrora.
Como fariam isso? Deixando de associar-se com esses que continuassem a viver hipocritamente. A palavra “associar” aqui remete a um relacionamento íntimo de comunhão, o que é reforçado com o que Paulo diz em seguida: “com tais pessoas vocês nem devem comer”.
Quando tivessem se livrado do fermento do orgulho e da soberba que os levava a uma vida de hipocrisia, estariam aptos e deveriam julgar cada um dos irmãos para identificar aqueles que continuavam a viver deliberadamente em práticas impuras. O julgamento daquele indivíduo específico deveria ser exemplo para o julgamento de todos os demais que vivessem hipocrita e deliberadamente nas práticas impuras de outrora.

Aplicações

Fato é que estamos sujeitos aos mesmos pecados da igreja de Corinto, não somos melhores. O velho fermento:
Levou Israel a práticas abomináveis e, consequentemente, ao exílio;
Fez com que os fariseus crucificassem o próprio Cristo;
Penetrou a igreja de Corinto de modo contaminá-la com as mais abomináveis práticas imorais;
Não estamos menos sujeitos do que eles a cairmos nesse pecado. Se o próprio Cristo nos exorta a termos cuidado com o “fermento dos fariseus”, tolo é aquele que critica o fariseu e julga-se isento de tal perigo.
Faço, então, alguns questionamentos:
Qual a última vez que você se preocupou com a saúde espiritual da nossa igreja? Quando foi a última vez que orou por ela?
Qual foi a última vez que você foi sensível a identificar os pecados da nossa igreja e lamentou por eles?
Quando você identifica um pecado no seu irmão, ao invés de exortá-lo e discipliná-lo, você se ensoberbece e se orgulha por não cometer aquele pecado?
Você busca ser sensível a usar seus dons naquilo que a igreja necessita ou busca impor dom simplesmente da forma como quer para alimentar seu ego?
Cuidado com o veho fermento! Pare de usar o seu conhecimento e sua religião como um fim em si mesma, como um objeto de orgulho pessoal! O seu conhecimento da palavra e a sua religião precisam te levar a um relacionamento mais íntimo com Cristo e com o seu Corpo, a Igreja. Precisam te levar a identificar as necessidades do corpo e não as suas próprias!
Pare de esconder a sua hipocrisia atrás de boas obras, objetivando sua auto justificação e seu engrandecimento pessoal (Mateus 6.1-6):
Misericórdia não é pena;
Serviço do reino não é emprego;
Oração não é discurso teológico;
Caridade não é objeto de propaganda pessoal.
Cristo já foi sacrificado, Ele nos salvou da Ira do Pai e nos libertou da escravidão do pecado para uma novidade de vida. Nós estamos vivendo a festa dos pães asmos da nova aliança! Só nos cabe agora festejar em alegria e gratidão, não havendo espaço nessa festa para orgulho ou soberba, pois não há nenhum dom que tenhamos ou nada que saibamos que não tenha sido dado ou revelado pelo Espírito Santo que habita em nós.
Não seja só mais um desigrejado dentro de uma igreja! Seja, haja e viva verdadeiramente como Corpo, do qual Cristo é Cabeça.
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