Gênesis 29.1-30

Série expositiva no Livro de Gênesis  •  Sermon  •  Submitted
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O redator concentra-se em mais uma vez tecer o quadro majestoso da providência divina, através da jornada de Jacó rumo ao lugar onde obteria da parte do Criador, a graça de encontrar esposas que seriam usadas como instrumentos para a continuação da linhagem santa, reforçando esse parâmetro teológico como exortação a ser observada pelo povo de Deus, isto é, a família da Aliança é o meio ordinário através do qual o SENHOR acresce o número dos eleitos e glorifica seu nome, expandindo seu Reino.

Notes
Transcript
“Este é o livro das gerações ...” (Gênesis 5.1).
Gênesis 29.1-30
Pr. Paulo Ulisses
Introdução
Como fora anteriormente constatado, as peregrinações dos patriarcas, além de sua conexão com Deus por meio das reafirmações das promessas e da Aliança - indicando a progressividade dos planos redentivos - precisam estar conectadas entre si. Essa ligação faz a história da redenção abranger não somente os homens com quem Deus estabelece compromissos pactuais, mas também com sua posteridade prometida, isto é, o povo de Israel, a quem o autor dirige-se ao usar esses fatos como base para suas exortações.
Outro ponto digno de destaque introdutório, é o provimento realizado pelo SENHOR quanto ao prosseguimento da linhagem. Sarai, esposa de Abraão, é a única que não migra, movida pela fé, para casar-se com o favorecido por Deus, tendo em vista que já estava casada com o patriarca quando Deus o chamou, seguindo seu passos, inclusive na fé. É a partir de Isaque que o padrão de casamento entre os patriarcas e mulheres que possuam a mesma compreensão e fé no Deus Altíssimo, se consolida. O trajeto de Eliézer, a mando da Abraão, até a terra dos parentes do patriarca, é o cenário usado por Deus para demonstrar seu poder providente em governar a história rumo ao cumprimento de seus intentos salvadores.
Usando este mesmo trajeto como referência, Moisés narra mais um estágio da peregrinação de Jacó rumo Harã, quando tomará mulheres que serão usadas por Deus como instrumentos no prosseguimento da linhagem santa. Em face dessa conjuntura de informações, o ponto focal do texto de Gênesis 29.1-30 é a retomada demonstrativa da providência divina na execução da redenção através da família da fé.
Elucidação
As circunstâncias em que Eliézer (Gn 24) e Jacó (Gn 29) se encontram, assemelham-se em termos das características em que a providência se apresenta, guiando ambos os personagens até aquela ("aquelas" no caso de Jacó) escolhida por Deus para que, pela fé, una-se ao patriarca em face da progressão da semente santa. Porém, a omissão de um detalhe na narrativa de Jacó, intensifica ainda mais esse princípio.
Ao longo de todo o enredo protagonizado por Eliézer, o SENHOR sempre é mencionado como sendo aquele que está por trás de todos os acontecimentos (e. g. Gn 24.7; 12; 21; 26-27; 31; 35; 40; 42; 44; 48; 50; 51; 52; 56), enquanto que, em Gn 29, não há qualquer citação ou referência a Deus como "diretor" de toda aquela trama. Essa omissão é tanto uma descrição fiel, visto o episódio ter acontecido tal como exposto, quanto proposital, tendo o autor se abstido de comentar ou referenciar a realidade da ação divina, mesmo não estando presente na narrativa em si - tendo ele, assim como outros autores bíblicos, liberdade para fazê-lo -.
A razão para essa omissão é simples: ao ter informado o leitor sobre o conceito do governo de Deus sobre a história no tocante ao desenvolvimento de seus planos e propósitos redentivos, por meio do casamento dos patriarcas com mulheres que depositaram sua fé no Deus que se revelara a elas por meio daqueles personagens (no caso de Sara, Abraão, e no de Rebeca, Eliézer), Moisés está naturalmente remetendo àquela primeira narrativa registrada em Gênesis 24, através da proximidade de contextos e acontecimentos. Por exemplo: 1) Tanto Eliézer quanto Jacó encontram um possível desfecho para sua jornada junto a um poço de águas (cf. Gn 24.11-14 - Gn 29.2); 2) Próximo a este mesmo poço, ambos encontram-se com pessoas que conhecem os parentes daqueles que os enviaram (Abraão no caso de Eliézer, e Rebeca e Isaque em relação a Jacó), como sinal da providência divina (cf. Gn 24.15;23-24 - Gn 29.4-6); e 3) Ao ouvir o relato (referido tanto a moça, quanto a Labão (irmão de Rebeca, pai de Raquel)), Eliézer e Jacó são recepcionados; o que também demonstra o favor divino e o êxito da jornada (cf. Gn 24.28; 30-31; 49-51 - Gn 29.12-14).
Moisés demonstra como a história da progressão da linhagem santa avança, conectando Jacó à Isaque e Abraão através desta narrativa, exibindo que, assim como Deus fora bondoso com Abraão dando-lhe a fé para fazer com que seu filho Isaque se casasse com uma mulher que confiasse no Deus da Redenção, da mesma forma estava sendo e seria com Jacó, concedendo-lhe a mesma benção. Essa repetição enfatiza não somente esse aspecto do plano redentivo, mas também encabeça as exortações realizadas pelo autor, quanto a importância da família para esse mesmo intento divino.
A linhagem da redenção mantém-se pura, quando pela fé, seus integrantes obedecem a este padrão divinamente estabelecido, e assim o SENHOR abençoa seu povo com filhos da Aliança, que enaltecem seu nome pelo seu conhecimento do Criador, expandindo Deus a sua glória sobre toda terra, através de seus herdeiros.
Todo esse enredo é desenvolvido ao longo da narrativa (vs. 1-14), e sucedido pelo casamento de Jacó com aquela que escolheu para si por esposa. Porém, a divina providência reservara um desfecho diferente do comum para a trama.
Após Labão oferecer um salário por serviços prestados a Jacó, este apresenta seu interesse por Raquel, e acreditando que tudo ocorreria tal como acordado entre eles, submete-se a trabalhar para Labão por sete anos, em troca da mão de Raquel em casamento (v. 18-20). Entretanto, Labão, usando de astúcia, não revela a Jacó o costume da terra quanto aos acordos matrimoniais em relação à filha mais moça de uma família, com o intuito de obter dele outros sete anos de serviço, já que entregaria suas duas filhas ao patriarca.
Essa tensão na narrativa, serve como adiantamento ou introdução para a narrativa seguinte, quando o contexto será o da geração de filhos mediante a rixa entre Raquel e Lia, fato que por sua vez é usado pelo autor para demonstrar o cumprimento da promessa divina de fazer de Abraão uma numerosa nação, pois a partir de Jacó e suas esposas, doze filhos são gerados, que serão os pais das doze tribos de Israel.
Mais uma vez, uma tensão na narrativa é usada para demonstrar como as promessas divinas mantém-se fiéis, mesmo com o passar dos anos. Assim como Abraão e Isaque, viram a divina providência governar a história, mesmo após terem fraquejado na fé, tendo Deus usado o próprio contexto adverso para fazer com que seus filhos fossem abençoados e favorecidos com riqueza e prosperidade (Gn 12.10-20; Gn 20; Gn 26), agora, o engano de Labão contra Jacó monta o cenário que se encarregará de expor toda a fidelidade de Deus a Abraão, fazendo com que Jacó case-se com mulheres que serão responsáveis por trazer ao mundo os doze filhos que gerarão o povo eleito de Deus; os herdeiros da terra de Canaã.
É importante também notar a ênfase do autor nesse caráter conturbado das narrativas de Abraão e Isaque, e que agora - por ser o personagem em questão até o final do texto de Gênesis - se intensificarão em Jacó. A falha de Abraão no Egito e em Gerar (Gn 12.10-20; Gn 20), e a fraqueza de Isaque na terra dos filisteus (Gn 26), serviram para demonstrar o princípio da soberania divina mesmo sobre os erros e pecados de seus servos, transformando mal em bem, agraciando-os. O mesmo conceito está sendo enfatizado de maneira mais clara através da saga de Jacó, primeiramente por meio do casamento confuso que acaba contraindo com Lia, quando desejava apenas Raquel, em seguida (como será visto posteriormente), através da rivalidade entre as esposas do patriarca, que é usada pelo Criador para cumprir sua palavra à Abraão, ao lhe prometer uma descendência numerosa.
O quadro amplo da divina providência, aparentemente confuso, revelará aos poucos a grandeza dos planos redentivos do Criador, em cada aspecto da história da salvação. Essa exortação central de Moisés ao povo de Israel, conclama o povo à fé no Deus que se revelara a seus pais, guinado suas história através de um fluxo que, se mostre humanamente confuso, está se processando de maneira perfeita, de acordo com os planos do Soberano.
Transição
O texto de Gênesis 29.1-30, reforça o quadro traçado desde a própria queda do homem no pecado, quando, frente a essa situação, alguém poderia supor infortúnio ou fracasso dos planos divinos em ser glorificado através de sua criação. Porém, ao contrário disso, todas as peças no tabuleiro da história, foram milimetricamente dispostas, e a cada jogada, a vitória do SENHOR sobre quaisquer forças adversas se mostra inevitável, pois até mesmo essas forças fazem parte do grande plano divino de enaltecer sua majestade na história da redenção.
Frente a essa análise, poderia ser difícil observar como episódios tão particulares, como esta narrativa da jornada de Jacó e seu(s) casamento(s), poderiam contribuir com esse enredo tão superior. Entretanto, o panorama da história redentiva é afunilado pelo autor de Gênesis, exatamente para anexar o povo de Deus a estes patriarcas, que por sua vez exibem o sucesso da ação divina em promover a salvação dos eleitos.
A contemplação dessa perspectiva nos fornece a assimilação dos princípios tencionados pelo autor, como exortações e admoestações para a igreja de Deus. Quais sejam:
Aplicações
1. Os "percalços" e infortúnios não estão fora do controle divino.
A insistência de Moisés em salientar esse ponto de sua exortação por meio da história dos patriarcas de Israel, nos conduz a refletir sobre a complexidade da internalização de tal princípio.
Diante dos dessabores dessa vida, somos sempre tentados a caminhar por vias extremas, que obstruem nossa visão do todo, em relação ao governo de Deus. Ou pensamos que não haja uma gerência sábia da parte de Deus, e que as constantes confusões, erros e fracassos são a resultante das aleatoriedades da história, ou desconectamos esses malogros do fluxo histórico redentivo, achando que nada têm a ver com o plano glorioso executado por Deus em que glorifica seu nome.
A via sábia, nesse caso, é também a via média. Deus guiou a Jacó ao longo de todo o seu trajeto, e não o largou quando entrou na casa de Labão, sendo também enganado por este, casando-se com Lia antes de Raquel. Toda a narrativa demonstra a providência divina, que age na vida de seus eleitos, levando-os ao centro da vontade do Criador. Enfatizando a temática retomada da providência do Criador guiando a história de seus patriarcas e de todo o povo de Deus por estes representados, inclusive através dos infortúnios (e.g. o engano de Labão), Calvino exorta:
[...] Sempre que estivermos vagueando por veredas tortuosas, devemos contemplar, com os olhos da fé, a Providência secreta de Deus que governa a nós e aos nossos planos, e nos conduz a resultados inesperados" (CALVINO, 2019, p. 133).
Neste caso, o resultado era bem esperado: o nome do Altíssimo foi glorificado, pois agora, Jacó será usado por Deus como demonstrativo de sua fidelidade em cumprir sua palavra a Abraão (como já comentado), fazendo Jacó fecundo. De igual forma, em nossa vida, devemos observar que mesmos as mais duras e excruciantes experiências, nos conduzem pelo caminho demarcado por Deus para que sua glória seja exibida, sabendo acima de tudo, que foi através de lutas e oposição que o Filho de Deus operou a mais sublime de todas as obras: nossa salvação.
2. A família da Aliança é o ambiente ordinário através do qual Deus expande seu Reino e acresce o número dos seus eleitos.
Ao retornarmos ao tema do progresso do plano de salvação (que tem como foco a glória de Deus e expansão de seu Reino) mediante operação providencial, inevitavelmente nos deparamos com outro conceito que está sendo repetido por Moisés: a centralidade da família no processo redentivo. Ao longo da narrativa de Gênesis, desde a criação, o contato do SENHOR com famílias é evidente, e o que parecia uma mera coincidência, passa a ser um "padrão".
Explicando a força desse princípio, Gerard van Groningen, salienta:
Deus disse a Adão e Eva para serem uma família da Aliança e assim receberam a responsabilidade de estar bem no centro, bem no coração do reino cósmico de Deus. A família da Aliança se torna o grande agente da Aliança e, nós acrescentamos, o agente mediador da Aliança de Deus. […] Foi a família que foi chamada também para frutificar e encher a Terra para que o plano de Deus de trabalhar por intermédio da família pudesse ser completamente realizado desde o tempo da criação até o tempo da consumação (van GRONINGEN, 2002, p.54).
Quando argumentamos que a família da Aliança é o agente mediador do pacto da graça, naturalmente não estamos dizendo que a família salva, ou que pertencer a uma família da Aliança indica por si só que sejamos salvos. O ponto em questão é que, ao observarmos a preocupação de Deus em que seu planos prossigam através de uma família da fé, tal como foi o caso de Abraão e Isaque, e agora, de Jacó, estamos declarando que o Deus Triuno estruturou a salvação para ser executada de tal forma, ao ponto de fazer da família o difusor principal de sua glória e da salvação.
Assim como Moisés declarou por meio da narrativa da jornada de Jacó até encontrar-se com seus parentes - ambiente que forneceria a(s) mulhere(s) que estaria (am) disposta(s) a unir-se ao patriarca pela fé no Deus que a ele se revelara - a providência divina em dar prosseguimento aos seus planos redentores, devemos também nós tomarmos consciência disso.
Nossos lares não são apenas o fruto de nossas vontades em constituir descendência, mas da providência divina em constituir filhos. Como é dito popularmente "Deus não une pessoas, une propósitos", nesse caso, ele não somente uniu, mas publicou seus propósitos: nossos lares são o ambiente através do qual o Criador suscita filhos para o seu Reino, para o louvor de sua glória.
Devemos dar glória a Deus por nossos maridos, esposas e filhos, pois são o símbolo da bondade divina em conceder que sua salvação fosse declarada através de nós... através de nossa família.
Conclusão
A providência divina é o amparo que nos consola em tempos confusos. Quando começamos a navegar por águas tempestuosas, é a confiança na sabedoria divina que nos faz descansar, pois a compreensão de que tudo ocorre exatamente de acordo com o que Deus planejou, nos garante a convicção da salvação.
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