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Mateus 7.24-29

Série expositiva no Evangelho de Mateus  •  Sermon  •  Submitted
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O Senhor Jesus conclui seu sermão por meio de uma exortação à prática da Palavra como fonte de segurança para os discípulos, de que mesmo enfrentando dificuldades e lutas, vencerão o mundo e as perseguições, pois adentraram o Reino dos céus, contra o qual mesmo que as tempestades se levantem com ímpeto, não prevalecerão.

Notes
Transcript
“[...] Porque é chegado o Reino dos céus” (Mateus 3.2).
Pr. Paulo Ulisses
Introdução
Encaminhando-se para o fim deste grande discurso, Cristo reitera todas as verdades por ele proferidas, conforme registrada desde o capítulo 5, sumarizando seus ensinamentos num último princípio: ele orienta seus discípulos a serem não somente ouvintes da Palavra, mas também praticantes.
Assim, esta seção do evangelho de Mateus tem como tese central a exortação de Cristo à prática da Palavra.
Elucidação
Após ter mais um vez redarguido os agentes do Reino a fim de que não dessem ouvidos às doutrinas errôneas e escabrosas do falsos profetas, que além de não estarem interessados no bem daqueles que amam a Deus, não possuíam qualquer tipo de ligação com o Pai celeste, Cristo passa a enfatizar a importância de manifestarem a glória do Reino por meio da prática de tudo aquilo que foi dito.
Para elucidar de maneira mais contundente a urgência de que seus ouvintes vivam à luz do que fora dito, o Senhor Jesus outra vez vale-se de uma figura de linguagem comparativa (i.e. símile) que apresenta a realidade do que está afirmando. A prática dos ensinamentos de Cristo é equiparada a um homem prudente que edifica sua casa sobre a rocha, enquanto que o néscio, que edificou sua casa sobre a areia, é qualificado como o que não pratica os mandamentos deixados por Cristo.
Ambos os homens usados por Cristo em seu exemplo constroem casas e são submetidos às mesmas circunstâncias: "e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa" (v. 25). Essa informação é repetida por Cristo em ambos os casos de maneira proposital. O ponto de distinção entre os dois homens não é a realidade que enfrentam: ao prudente não é concedido que tenha amenidades em sua vida, mas passará pelas mesmas dificuldades que o néscio. Todavia, o ponto central da símile não são as circunstâncias enfrentadas por ambos, mas o modo como se prepararam para as enfrentar.
Tal ênfase encontra ponto de contato com os leitores para os quais Mateus estaria escrevendo seu evangelho: os crentes em Roma. A capital do império romano era uma cidade que se tornava cada vez mais hostil aos que professavam a fé em Cristo. A impossibilidade de conformar a fé apostólica ao paganismo greco-romano, tornava os cristãos um grupo indesejado e intolerado pelas autoridades, e infringiam diversas penalidades para aqueles que expunham a fé em Cristo.
Outro fato que reforça ainda mais esta fala de Cristo registrada por Mateus seria uma exortação pastoral feita pelo próprio apóstolo, a que os crentes não esmoreçam na fé, mas continuem dando testemunho do Evangelho do Reino, mesmo em tempos dificéis como os que os cristãos em Roma estavam passando. A obediência aos mandamentos do SENHOR é a marca que resume e sintetiza todos os princípios legados por Cristo a sua igreja por meio deste sermão. Se atentamente praticassem o que dele receberam como mandamentos, evidenciariam que o Reino dos céus é uma realidade, e além disso, poderiam desfrutar de fortalecimento suficiente para resistir em dias maus.
Prudência e insensatez são qualidades contrastantes que são demonstradas pelo fim de cada construção e de cada homem consequentemente: o prudente, tendo ouvido as palavras de Cristo, edificou uma casa sobre terreno confiável e seguro. Apesar de a tempestade - as dificuldades da vida e até a luta contra um mundo hostil - permaneceu de firme, e não se abalou. Por outro lado, o tolo, construiu sua casa sobre um terreno frágil e instável. O resultado é que ela desabou "sendo grande a sua ruína" (v. 27).
É particularmente peculiar que Cristo resuma seus ensinamentos através da comparação com o praticante da palavra e o que não a pratica, logo após ter exortado fortemente seus discípulos a se apartarem do caminho largo, escolhendo o estreito. Seria tentador aos cristãos, tendo em vista as dificuldades da vida, enveredarem por um caminho aparentemente mais fácil, qual seja; hipocrisia, legalismo e libertinagem. O comodismo da "não-prática" dos mandamentos de Cristo poderia nutrir a ilusão de estarem seguros, ou confortáveis. Porém, em vindo as dificuldades, logo é exibido os fundamentos sobre os quais se está edificado: as facilidades do mundo são na verdade, fragilidades.
Optar por seguir um outro evangelho, pode inicialmente parecer vantajoso, mas a ruína sempre vem a fim de que a verdade se estabeleça. Por outro lado, a vida complicada e turbulenta do agente do Reino pode ser desanimadora, à princípio. Perseguições, afrontas, dificuldades, hostilidade, todo esse "mal tempo" parece tornar a estrada cristã impossível de ser trilhada. Porém, o evangelho da verdade nos mostra a realidade graciosa daqueles que foram chamados em Cristo ao Reino: longe de se tratar de um sofisma humano, ou de um ensino baseado nos engôdos de falsos mestres, o evangelho demonstra a solidez da salvação executada pelo Deus Triuno no tempo determinado, redimindo os eleitos do SENHOR para que usufruam da segurança do Reino que está por vir, pois está edificado sobre a rocha (v. 25).
Quando o texto de Mateus 7.24-28 é comparado ao registro de Lucas 6.46-49, novamente é percebido uma conexão entre ambos os textos, embora as ênfases de cada escritor variem. O ponto focal da narrativa de Lucas consiste em também demonstrar os frutos do Reino por meio da prática dos ensinamentos de Cristo, embora, haja uma diferença em termos dos detalhes entre as figuras de linguagens usadas por Cristo, conforme registradas por ambos os evangelistas.
Lucas complementa a ideia da construção da casa tanto pelo prudente quanto pelo insensato, levando em consideração a edificação sobre um fundamento sólido, ausente no caso do segundo homem. Essa conceituação feita por Lucas coaduna-se com o objetivo de seu escrito, tal como registrado em 1.3-4
"Igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído".
O evangelista exibe detalhadamente os ensinamentos de Cristo, encorajando Teófilo a praticá-los, sabendo que a fé que possui deve ser acompanhada pela certeza de que aquilo que o Senhor Jesus havia ensinado e que foi repassado para ele, era a verdade do Reino que ele deveria obedecer.
Sem essa convicção e confiança de que somente as palavras de Cristo lhe poderiam fornecer o embasamento da fé de que precisava para suportar quaisquer dificuldades que enfrentasse em sua jornada cristã, Teófilo sucumbiria. É nesse ponto que o propósito de Mateus é comum ao de Lucas, pois, da mesma forma como está instruindo sua audiência a perceber que somente os ensinamentos de Cristo poderão garantir a estabilidade no momento das adversidades, Mateus exorta os cristãos em Roma a permanecerem fiéis às palavras do Mestre, tendo em vista que somente elas poderão fornecer vida eterna, ao invés de abandonarem a fé por causa das lutas e "tempestades" (provavelmente uma metáfora para perseguição).
Esse princípio amplia a compreensão da seção anterior onde adverte seus discípulos contra os falsos profetas. A "opção" do caminho largo ou caminho estreito, como já dito, demandarão uma posição dos agentes do Reino que perpassa pela consideração que terão aos mandamentos de Cristo, e a escolha além de refletir o estado espiritual (se o indivíduo é ou não um agente do Reino), trará consequências, como esclarece Robert Gundry:
Embora o comportamento frouxo possa isentar você de perseguição agora, vai submetê-lo à destruição na vida futura (i.e. será como o insensato que construiu a casa sobre a areia); mas, embora a justiça superior o submeta à perseguição agora, vai eximilo da destruição na vida futura (i.e. a prática das palavras de Cristo que é comparada a edificação de uma casa sobre a rocha) (GUNDRY, 2008, p. 233). Acréssimo nosso.
No final, o autor registra o quanto os princípios que Cristo estava ensinando diferem daqueles pregados pelos escribas; homens que apesar de terem grande conhecimento da Lei, não a interpretaram à luz do plano de salvação que inclui o reconhecimento de Cristo como o Messias:
"[...] As multidões maravilhadas da sua doutrina; 29 porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas (vs.28–29)".
A pregação do Senhor Jesus demonstra a compreensão verdadeira do que significa o Reino de Deus e de como esse Reino interfere diretamente na vida daqueles que são chamados a fazerem parte dele.
Transição
O texto de Mateus 7.24-29 demonstra o encerramento do sermão da montanha com uma última ênfase feita por Cristo, que por sua vez é cuidadosa e pastoralmente direcionada por Mateus aos seus ouvintes/leitores a fim de adverti-los e consolá-los.
Como filhos do Pai celeste, tendo recebido a revelação e o convite para entrar no Reino dos céus reconhecendo, pelo poder do Espírito Santo, Cristo como o Filho de Deus por meio de quem: 1) entenderam a ética do Reino (cap 5); 2) compreenderam como deveriam relacionar-se com o Pai celeste (cap 6); e 3) viver em comunhão uns com o outros para glória de Deus (cap 7), a igreja do SENHOR é exortada a fugir dos falsos mestres e praticar os mandamentos deixados pelo Senhor, pois assim, evidenciariam que de fato pertencem ao Reino dos céus.
Os mesmos princípios então são transpostos para todo aquele que "ouve estas palavras" (v. 24), numa que, por meio do Espírito, as palavras de Cristo ecoam através dos tempos, gerando filhos e filhas do Reino que são arrebanhados como ovelhas pelo Supremo Pastor. Assim, como tais, devem também por em prática essas exortações, para que suportem as lutas e adversidades de um mundo em ruínas, que dará lugar ao esplendoroso Reino de Deus.
O texto de Mateus 7.24-29 convida-nos à observamos a vontade de Deus por meio deste princípio tão evidente.
Aplicações
Como agentes do Reino, devemos não somente ouvir as palavras de Cristo, mas praticá-las.
O presbítero Tiago, irmão de nosso Senhor Jesus Cristo, exortando a Igreja mediante as palavras que dEle recebeu, ecoa os mesmos princípios elencados por Mateus em seu evangelho, conduzindo a igreja à prática da palavra, através das seguintes exortações:
"Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar" (Tg 1.22–25).
A única diferença entre a fala de Tiago e o sermão de Cristo, é exatamente as figuras que são usadas para retratar os que apenas ouvem as palavras de Jesus. Segundo Tiago, a insensatez do que não vive de acordo com os princípios do Reino é semelhante a alguém que contempla num espelho seu reflexo mas, em afastando-se dele, esquece-se de como é seu rosto. Sua memória é tão fugaz, tão passageira, tão fraca, que é incapaz de guardar viva sua própria fisionomia. Calvino, comentando este texto de Tiago, enfatiza:
A doutrina é deveras um espelho no qual Deus se apresenta à nossa vista; de modo que sejamos transformados em sua imagem, no dizer de Paulo em 2Coríntios 3.18. Aqui, porém, ele fala do relance externos dos olhos, não da meditação vívida e eficaz que penetra o coração. Eis uma comparação notável pela qual ele notifica sucintamente, a saber, que uma doutrina meramente ouvida e recebida nos recessos do coração de nada vale, porque logo se desvanece (CALVINO, 2015, p. 54).
Somente uma imagem permanece para sempre: a glória do Deus Triuno em Cristo, seu Filho Bendito. Assim, todo aquele que ouve atentamente seus ensinamentos e os pratica, é conformado à sua imagem, e por isso, recebe a promessa de permanecer, tal como o justo do Salmo 1.3. Porém, o tolo, confiando em suas próprias elucubrações, perde-se devido a fragilidade de suas obras, pois não estando em Cristo, são como trapos velhos que para nada servem, e assim, também recebendo a promessa do Salmo 1.4, desvanecerão, tal como o reflexo de um homem na água de um lago agitado.
Para nós, filhos de Deus, a prática da Palavra é não somente um estilo de vida, como poderiam erroneamente supor alguns, mas faz parte de quem somos, de nossa identidade. Se queremos ser reconhecido como porta-vozes do Reino, devemos entender que o neste Reino não há espaço para falsos ou hipócritas.
Se não temos a coragem e disposição para fazer a vontade de Deus, "a porta da rua é de fato a serventia da casa". Não há lugar entre as ovelhas de Cristo para um bode rebelde, que recusa-se a prestar ouvidos ao que o Bom Pastor nos diz. Porém, a advertência ganha ainda mais força, se fizermos um exame acurado de nossas vidas; descobriremos o quanto somos negligentes em praticar a vontade de Deus.
Deixe-me dar um exemplo:
Temos sido bem-aventurados (Mt 5.1-12)?
Somos sal da terra e luz do mundo (5.13-16)?
Temos amado nossos irmãos (5.21-26)?
Temos sido fiéis, privando nossos olhos do indevido (5.27-31)
Temos sido honestos em nossas palavras (5.33-37)?
Temos misericordiosos (5.38-42)
Temos amado nosso próximo (5.43-48)?
E quanto as obras de caridade?
Temos buscado a glória de Deus ou o louvor dos homens usando a caridade como palanque espiritual (Mt 6.1-4; 16-18)?
Temos orado ao Pai celeste, tal como nosso Senhor nos ensinou? (Mt 6.5-14)
Temos confiado em nosso Pai como o providente cuidador de nossas vidas, amando a ele mais do que às riquezas (Mt 6.19-34)?
Observando nosso julgamento, temos auxiliado nossos irmãos a viverem por modo digno do evangelho (Mt 7.1-6)?
Temos clamado ao Espírito que nos faça viver a verdadeira comunhão (Mt 7.7-12)
Temos seguido os passos de nosso Mestre, escolhendo o caminho estreito que leva a vida, fugindo dos ensinos dos falsos profetas do nosso tempos (Mt 7.13-23)?
É seguindo esses princípios que praticaremos o que nos mandou nosso Rei, e viveremos de acordo com sua vontade, esperando seu glorioso retorno para nos unirmos à ele para sempre.
Conclusão
Somente as palavras de Cristo edificam a vida do crente, tornando-o capaz de suportar as tempestades dessa vida, pois está alicerçado na Rocha Eterna, que jamais se abalará.
Um hino antigo, resume a esperança daqueles que ouvem e praticam as palavra de Cristo:
“Da Igreja o fundamento é Cristo, o Salvador!
Em seu poder descansa e é forte em seu amor.
Pois nele, alicerçada, segura e firme está,
E sobre a Rocha Eterna jamais se abalará.
A pedra preciosa que Deus predestinou
Sustenta pedras vivas que a graça trabalhou.
E quando o monumento surgir em plena luz,
A glória do edifício será do Rei Jesus!” (Estrofes do hino “A Pedra Fundamental” em HENDRIKSEN, 2010, p.473).
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