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Mateus 6.9

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Cristo exemplifica quais devem ser os princípios que nortearão a prática da oração, introduzindo seu exemplo com a demonstração da doutrina da adoção e da glória de Deus como maior anseio na vida do agente do Reino.

Notes
Transcript
“[...] Porque é chegado o Reino dos céus” (Mateus 3.2).
Pr. Paulo Ulisses
Introdução
Como vimos no texto anterior, Cristo realiza suas exortações quanto a oração tendo em vista o contraste que existe entre a postura e disposição do coração dos hipócritas quando comparados aos agentes do Reino, que são motivados pela revelação messiânica de Jesus, a relacionarem-se com o Pai celeste de maneira pessoal e direta, como será demonstrado pelo próprio Cristo através dessa oração.
Dessa forma, cada sentença na oração de Cristo aponta para um princípio que deve estar presente na mente de cada agente do Reino ao orar ao Pai celeste, Contemplaremos toda essa didática da oração neste verso 9, através de uma estrutura que considera dois pontos: 1) o aspecto corporativo da oração; e 2) a glória de Deus como desejo principal na vida os agentes do Reino.
Elucidação
1. o aspecto corporativo da oração.
A demais de todas as exortações já feitas por Cristo anteriormente guiando seus discípulos a não serem como os hipócritas, que embora achassem que estavam vivos, estavam mortos, pois não lhes fora dada o reconhecimento da chegada do Reino de Deus em Jesus, Cristo proporciona um ensinamento ainda mais explícito sobre como a oração deve ser feita pelos agentes do Reino. Embora tenham aprendido a respeito da oração, há uma necessidade intrínseca ao coração dos homens, tornando-os débeis para com as obras de piedade, principalmente no que tange ao relacionamento com Deus. Como comenta Ferguson:
Jesus sabia disso e, portanto, ensinou Seus discípulos a orarem o que chamamos de “A Oração do Pai Nosso”. Ela serve a dois propósitos. Em primeiro lugar, provê uma oração modelo, um esboço de fácil memorização, ensinando-nos o modo como devemos nos aproximar de Deus enquanto Pai e a forma pela qual devemos falar com Ele. Em segundo lugar, serve de esboço para a vida cristã em sua completude, fornecendo alguns “pontos estabelecidos” de interesse à família de Deus. Ela destaca as prioridades da vida e nos ajuda a colocá-las em foco.
Dessa forma, a introdução do verso 9 (“Portanto, vós orareis assim...”), aponta para o caráter didático da oração: um modelo que deve nortear o modo como a oração deve ser realizada, em termos dos princípios contidos na mesma.
O primeiro ponto a ser observado no decorrer do versículo é o designativo usado por Cristo com o qual devemos tratar o alvo de nossa oração: o Pai. Nas palavra de D. A Carson:
Sem dúvida, Jesus era o Filho de Deus em um sentido singular; Deus era singularmente seu Pai. O modo de Jesus se dirigir a Deus faz parte de um quadro mais amplo em que ele afirma, de muitas maneiras diferentes, ser excepcionalmente um com Deus. Porém, o extraordinário nesse modelo de oração é que Jesus está ensinando seus discípulos a se dirigirem a Deus da mesma forma. Com seu ministério, morte e ressurreição, Jesus produziu os meios pelos quais as pessoas podem chegar a Deus todo-poderoso e dizer com propriedade: “Pai nosso”.
A revelação grandiosa de que o Deus Todo-poderoso adotou-nos e nos fez seus filhos pelo seu poder restaurador está anexa a essa expressão inicial da oração que o SENHOR Jesus ensina. O primeiro passo da oração, conforme o texto, é a adoração a Deus, e já no ato de adoração está fixado a cláusula relacional que permite que a própria oração aconteça: a oração é dirigida não a um soberano distante e inalcançável, mas ao Pai Supremo que do alto de seu sublime trono, olhou com graça para os eleitos a fim de mudar sua sorte: de filhos da ira, são transformados em filhos do Deus Triuno.
No termo “Pai”, estão contidas duas dimensões de uma mesma realidade. O judeu da época de Jesus jamais conceberia ou poderia imaginar em chamar habitualmente YHWH de Pai, pois sempre preferia empregar vocativos majestáticos em referência a Deus: ‘Yahweh’ (Todo-poderoso), ‘Adonai’(Senhor), ‘El’ (Deus). De maneira análoga, porém contrastante, Cristo mantém o grau de superioridade ao chamar Deus de ‘Pai’ em seu ensino, isto é, ele enfatiza o reconhecimento da grandeza e autoridade do único e verdadeiro Deus sobre tudo e todos, como expresso por ele ao dizer: “que estás nos céus”. O próprio Cristo já havia referenciado os céus como lugar do trono de Deus, apontando para sua infinita grandeza e altivez (Mt 5.34). O quinto mandamento exprime essa preocupação, de que as autoridades sejam reconhecidas como tais, e que por isso, devem ser obedecidas, sobretudo o próprio SENHOR. Porém, a distância entre o povo da aliança e seu SENHOR é rapidamente encurtada quando observamos que está contida na palavra a ideia de que embora seja a autoridade superior, há uma relação íntima estabelecida entre as partes: uma relação redentora e pactual.
Mediante o prisma do pacto, o caráter corporativo da aliança é trazido ao centro da oração por Cristo quando qualifica “o Pai que está nos céus” como “nosso”. Certamente a oração é uma prática também individual, mas a realidade corporativa e comunitária do Reino dos céus é de tal forma latente, que os aspecto comum do tratamento divino não poderiam escapar o campo da oração, e assim, a disciplina da oração também deve considerar que o crente não está sozinho em sua relação para com Deus, mas ainda que orando em seu quarto em secreto (v.6), deve ver-se numa relação de horizontalidade e intimidade com todos aqueles que como ele foram alvos da graça soberana do SENHOR Deus, salvando-os. Como alude novamente Carson:
[...] Devemos prestar atenção à invocação inicial: “Pai nosso, que estás no céu”. Jesus não nos ensinou a orar: “Meu Pai, que estás no céu”, mas, sim, “Pai nosso”. Os cristãos não devem orar em magnífico isolamento e não devem conceber a espiritualidade em relação ao individualismo exacerbado [...]. É claro que há lugar para orar individualmente a Deus, mas o padrão geral da nossa oração deve ser mais amplo que isso. Portanto, quando eu, como um seguidor de Cristo entre muitos, me dirijo a nosso Pai, minha preocupação é com o nosso pão de cada dia, os nossos pecados e as nossas tentações — não somente com as minhas.
2. A glória de Deus como desejo principal na vida os agentes do Reino.
Em complemento a esta primeira frase declarada por Cristo em sua didática da oração, está anexa uma petição: “santificado seja o teu nome” (v. 9). O termo grego “ἁγιασθήτω” (gr. lit. “santificado”) detona a ideia do ato de purificar, considerar sagrado, ou ainda respeitar, ou reverenciar como santo. Dessa forma, a intenção de Jesus é que a publicação ou glorificação do nome de Deus seja um desejo tão perene no coração dos agentes do Reino, que seu primeiro impulso na oração é exatamente rogar para que o Pai lhes use como instrumento da proclamação e divulgação de seu nome sobre a terra, como asserta R. C. Ryle:A glória de Deus é a primeira coisa à qual os filhos de Deus deveriam aspirar.
A perseguição do objetivo de que em primeiro lugar a majestade do Pai celeste seja expandida de modo que todo o mundo a reconheça encabeça a oração dominical, pois enfatiza a didática exposta por Cristo quanto ao relacionamento que os filhos de Deus devem ter com ele. Antes de quaisquer coisas a serem consideradas na oração, o anelo pela glória do SENHOR motiva os crentes a viverem em busca desse ideal.
O reconhecimento da majestade e soberania de Deus como princípio norteador da oração é um fator que permeia todas as orações registradas no Texto Sagrado. Desde os cânticos primevos até os salmos, nota-se que o princípio apresentado por Cristo na introdução da oração dominical, não é algo novo tratado por ele, assim como aquilo que fora ensinado por ele no capítulo anterior quanto a Lei, não consistia em conceitos recém criados, mas sim, corretamente interpretados e clarificados para seus ouvintes.
Assim, o verso 9 bem como toda a oração dominical, representa a síntese do conceito bíblico quanto a oração.
Sistematizando o ensino da oração dominical, o Catecismo Maior de Westminster, elabora nas perguntas 189 e 190, os princípios contidos nessa primeira seção da oração, nos seguintes termos:
189. O que nos ensina o prefácio da Oração do Senhor?
O prefácio da Oração do Senhor, que é: “Pai nosso que estás nos céus”, nos ensina, quando orarmos, a nos aproximarmos de Deus com confiança na sua bondade paternal e no nosso interesse nele; com reverência e todas as outras disposições de filhos, afetos celestes e a devida apreensão do seu soberano poder, majestade e graciosa condescendência; bem assim o orar com outros e por eles.
190. O que pedimos na primeira petição?
Na primeira petição, que é: “Santificado seja o teu nome” – reconhecendo a inteira incapacidade e indisposição que há em nós e em todos os homens, de honrar a Deus como é devido -, pedimos que ele, pela sua graça, nos habilite e nos incline, a nós e aos demais, a conhecê-lo, confessá-lo e altamente estimar, a ele e a seus títulos, atributos, ordenanças, palavras, obras e tudo aquilo por meio do qual ele se dá a conhecer; a glorificá-lo em pensamentos, palavras e obras; que ele impeça e remova o ateísmo, a ignorância, a idolatria, a profanação e tudo quanto o desonre; que pela sua soberana providência dirija e disponha tudo para a sua própria glória.
É visível que o primeiro ponto da oração destina-se a constranger o coração dos agentes do Reino a moverem-se de íntima e profunda gana por tornar notório e glorificado o nome de Deus através de seu relacionamento filial com ele. Por meio dessa relação, como já ficou evidente até este ponto do evangelho, o Reino dos céus é de tal forma evidenciado, que a própria obra salvífica é proclamada. Logo, a oração não é apenas um meio de comunicação ou apresentação das necessidades dos filhos de Deus em suas vidas diárias, apesar de estar anexa à oração esse princípio, porém, mais abrangente que isso, a dimensão de participação e atividade no Reino é o norteador da disposição do coração que deverá usar as diretrizes ordenadas por Cristo nas preces oferecidas ao Pai.
Seguindo essa mesma compreensão, o Catecismo de Heidelberg afirma na pergunta 122:
Qual é a primeira petição?
R. "Santificado seja o teu nome". Quer dizer: Faze primeiro, com que Te conheçamos em verdade e Te santifiquemos, honremos e glorifiquemos em todas as tuas obras, em que brilham tua onipotência, sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade. Faze, também, com que dirijamos toda a nossa vida - nossos pensamentos, palavras e obras - de tal maneira que teu nome não seja blasfemado por nossa causa, mas honrado e glorificado.
Antes de quaisquer anelos pessoais, a oração dominical assevera a busca por um propósito muito maior do que o atendimento das necessidades, pois, como já dito por Cristo, o Pai celeste já as conhece antes que lhe sejam apresentadas (v. 8). Esse propósito é o reconhecimento da superioridade do Reino dos céus em Deus o Pai, revelado na pessoa de Jesus Cristo, o qual somente pode ser recebido por fé como redentor pela operação do Espírito Santo. Viver a luz dessa verdade, torna o indivíduo habilitado a ansiar pela glória do Deus Triuno, e também, como está posto numa relação corporativa, acessa a dimensão espiritual que lhe comove a participar da vida entre irmãos, de tal maneira que vê-se disposto a buscar a Deus como Pai juntamente com seus irmãos, experimentando assim, ainda que não de maneira consumada, mas progressiva, o Reino dos céus.
Transição
Esta primeira sentença da oração dominical encerra a verdade de que adoramos e servimos ao Deus Triuno Todo-poderoso como filhos adotados pela sua graça em Cristo Jesus, e que sua glorificação do seu nome, é a maior aspiração que podemos ter. Mas há ainda outras considerações a serem extraídas desse texto para nossas vidas.
Aplicações
1. A primeira reação de um agente do reino na oração, é reconhecer a Deus como ‘nosso’ Pai. (“Pai nosso que estás nos céus”).
Num mundo pervertido e caótico como o que vivemos, é cada vez mais difícil conceber a ideia de que podemos confiar em outra pessoa além de nós mesmos, principalmente se esta acha-se numa posição hierárquica superior à nossa, seja no trabalho, na faculdade ou outros ambientes. Porém, não é assim no Reino dos céus. Somos advertidos por Cristo a recorrer ao Deus Todo-poderoso como alguém que está sempre disposto a ouvir nossas petições e orações, desde que o primeiro sentimento do nosso coração seja o de reconhecê-lo como SENHOR sobre nossa vida.
Aquele que rege e governa todas as coisas, assenta-se sobre o trono de majestade nos céus guiando nossa vida para o centro de sua vontade. Descansar sob o cetro do Rei de todo o universo é algo concedido apenas àqueles que receberam a revelação do Pai no Filho para a salvação do povo eleito desde a fundação do mundo. O mundo não contenta-se com a ideia de submissão as ordens do SENHOR, por isso, agem como rebeldes, como ímpios, ou, noutras palavras, como bastardos.
Num mundo emocionalmente quebrado e fragilizado pelo abandono de pais irresponsáveis que deixaram seus filhos, saíram do convívio do lar; num mundo onde os pais que ficam, muitas vezes maltratam, abusam ou vilipendiam seus filhos, a Escritura nos revela um Pai além da imperfeição e corrupção do pecado, um Pai perfeito, que nos ama e está disposto a nos acolher como filhos queridos, cercando-nos com sua providência, cuidando a todo instante de nós.
Outro ponto é que num mundo cada vez mais individualista, pouco espaço há para que pensemos em outra vida ou outras necessidades além das nossas. Mas, lembre-se, Deus não é o seu Pai, mas sim, nosso Pai. Quando orar, lembre-se que naquele mesmo momento, há outros irmãos seus recorrendo ao favor do SENHOR em várias partes do mundo. A humildade em reconhecer que não somos o centro das atenções é uma qualidade quase deixada de lado em nosso tempo. Porém precisamos nos lembrar, que a aliança feita pelo Pai com o Filho não inclui um indivíduo, mas um povo, e dessa forma, negligenciar a assistência da oração em favor de toda a família de Deus, é atentar contra a vontade do Nosso Pai que está nos céus.
2. Um agente do Reino, almeja acima de tudo, a glória de Deus. (“Santificado seja o teu nome”).
Quais tem sido seus anseios? Qual tem sido seu maior desejo e vontade? O que mais você quer em sua vida? Um bom emprego? Um bom carro? Talvez não ser rico, mas ter boas condições financeiras? Realização profissional? Afinal de contas, responda para si mesmo, o que você mais deseja? Não é a glória de Deus? A exaltação do nome do seu Criador em sua vida? Não é expandir o conhecimento sobre o SENHOR em tudo o que faz? Não é usar seus dons e talentos de maneira que os homens glorifiquem o Pai que está nos céus?
Responda ainda: o que você acha que pode ser comparado a glória de Deus? Que outra coisa pode ocupar tanto o seu coração quanto a declaração do reinado de Cristo sobre o universo, sem que isso não seja um ídolo que está competindo pelo trono do seu coração, quando toda a sua vida deve refletir a salvação que recebeu das mãos do Cordeiro de Deus?
O clamor da igreja ao longo dos tempos tem se resumido a isso: A GLÓRIA DE DEUS ACIMA DE TUDO! Santificar o nome de Deus também inclui, empreender todos os esforços para não blasfemar o nome sagrado do SENHOR, agindo de maneira ímpia e relapsa, pecado contra a Palavra da Verdade. Para isso, precisamos nos lembrar que o pecado não está restrito ao fazer algo de errado ou proibido, mas deixar de fazer o que é certo, também é um meio de transgredir o mandamento do Criador, e assim, não dar glória a Deus.
A oração também não pode ser resumida a um momento quando deposito aos pés de Cristo minhas necessidades, apesar de isso fazer parte. A oração é a inclinação da disposição do nosso coração em servir ao SENHOR todo o tempo, dedicando então, uma parte do nosso dia ao contato com o Pai celeste.
Orar é falar com Aquele que nos adotou em Cristo, e nos deu a graça de enaltecermos o seu nome em nossas vidas.
Conclusão
Esta primeira sentença da oração dominical nos aponta o norte para onde deve seguir nossa vida: vivendo diariamente em busca de agradar e servir o nosso Pai, amando a Cristo; aquele que nos revelou o Pai pelo poder do Espírito, almejando a consumação de seu plano redentor: a glória do Deus Triuno.
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