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Santa Ceia

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Qual é o significado presente da Ceia do Senhor? Já vimos seu significado passado e futuro. Mas, quanto ao presente? Foi neste ponto que emergiu a grande maioria das controvérsias em torno da Ceia do Senhor.
No decorrer da história da igreja, a maioria das pessoas tem favorecido a opinião de que a presença real de Cristo está na Ceia do Senhor. Em outras palavras, estamos em comunhão real com ele na Ceia. É claro que nem todos creem que há alguma maneira especial em que Cristo esteja presente na Ceia do Senhor, mas estes são claramente a minoria. Em qualquer caso, a controvérsia referente à presença de Cristo na Ceia é mais profunda. A maioria tem concordado em que Cristo está realmente presente na Ceia; o ponto de conflito envolve o modo dessa presença. Os cristãos não têm concordado quanto à resposta para esta pergunta: de que maneira Cristo está presente na Ceia do Senhor?
Parte da questão se centraliza em como a presença de Cristo está relacionada às suas palavras de instituição. Todos os três evangelhos sinóticos registram que Jesus disse: “Isto é meu corpo”. Historicamente, a questão que emergiu nestas controvérsias envolve a palavra é. Como ela deve ser entendida? Quando dizemos que alguma coisa é, o verbo ser funciona como um sinal de igualdade. Podemos reverter o predicado e o sujeito sem qualquer perda no significado. Por exemplo, se alguém diz que “um solteiro é um homem não casado”, não há nada no predicado que não esteja presente na noção de solteiro do sujeito. A palavra é, nesta sentença, serve como um sinal de igualdade. Poderíamos reverter e dizer: “Um homem não casado é um solteiro”.
Além deste uso do verbo ser, há também o uso metafórico, no qual o verbo ser pode significar “representar”. Pense, por exemplo, nas afirmações de Jesus em que ele disse “Eu sou”, que se acham no evangelho de João. Jesus disse: “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Eu sou o Bom Pastor. Eu sou a porta pela qual os homens devem entrar. Eu sou o caminho; eu sou a verdade; eu sou a vida”. Da leitura de qualquer desses textos, fica claro que Jesus estava usando o sentido representativo do verbo ser, de uma maneira metafórica. Quando ele disse: “Eu sou a porta”, não estava dizendo que, onde temos pele, ele tem algum tipo de madeira envernizada e dobradiças. Jesus queria dizer, metaforicamente: “Eu sou o ponto de entrada para o reino de Deus. Quando alguém entra numa sala, tem de passar pela porta. Da mesma maneira, se você quer entrar no reino de Deus, tem de vir através de mim”.
Quando examinamos as palavras de instituição da Ceia do Senhor, a pergunta óbvia é: como Cristo usou a palavra é nesta ocasião? Estava dizendo: “O pão que estou partindo é realmente minha carne, e este cálice de vinho que abençoei é o meu sangue”? Quando as pessoas bebem o vinho, estão bebendo realmente o sangue físico de Cristo? Quando comem o pão, estão comendo realmente a carne física de Cristo? Esta é a essência da controvérsia.
Lembre: na Roma do século I, os cristãos foram acusados do crime de canibalismo. Havia rumores de que os cristãos se reuniam em lugares secretos, como as catacumbas, para devorar o corpo de alguém e beber o sangue dessa pessoa. Bem cedo na história da igreja primitiva, já havia aparecido a ideia de uma conexão real entre o pão e a carne, e o vinho e o sangue.
No século XVI, os luteranos e os reformados reconheceram que a principal barreira que os mantinha separados era seu entendimento da Ceia do Senhor. Eles concordavam em quase tudo mais. Martinho Lutero insistia no significado de identidade da palavra é, no texto da Ceia. Em meio às discussões, ele repetia com frequência a expressão latina hoc est corpus meum – “isto é o meu corpo”. E insistia nisto.
Uma das principais controvérsias, na Reforma do século XVI, se relacionava ao entendimento católico romano quanto à Ceia do Senhor. A opinião da Igreja Católica Romana, naquele tempo e agora, é conhecida como transubstanciação. É a opinião de que a substância do pão e do vinho são transformados sobrenaturalmente no corpo e no sangue real de Jesus, quando uma pessoa participa da Ceia do Senhor. Mas, havia uma objeção simples a esta opinião. Quando se participava da Ceia do Senhor, o pão e o vinho ainda pareciam, tinham gosto e cheiravam como pão e vinho. Não havia nenhuma diferença discernível entre o pão e o vinho, antes e depois da consagração dos elementos. Uma pessoa poderia dizer: “Vocês falam sobre o milagre de Cristo estar realmente presente aqui, mas é certo que as coisas não mostram isso. Os elementos parecem exatamente os mesmos que eram antes”.
Para explicar este problema, a Igreja Católica Romana desenvolveu uma fórmula filosófica que explica o fenômeno das aparências do pão e do vinho. Eles recorreram às categorias filosóficas de Aristóteles e adotaram a linguagem dele para articularem a sua opinião.
Aristóteles se preocupava com a natureza da realidade e fez uma distinção entre a substância de um objeto e os acidentes de um objeto. O vocábulo “acidente” se referia a uma qualidade externa e perceptível de uma coisa. Se você tivesse de me descrever, me descreveria em termos de meu peso, minha altura, as roupas que uso, meu estilo de cabelo, a cor de meu rosto ou de meus olhos. Em todas estas descrições, você está restrito às minhas qualidades externas perceptíveis. Você não sabe o que eu sou, em minha essência pessoal. Eu não sei a verdadeira essência de uma barra de giz. Vejo apenas a forma cilíndrica, a rigidez e a cor branca. Estas são as qualidades exteriores perceptíveis do giz.
Aristóteles acreditava que todo objeto tem sua própria substância e cada substância tem seus acidentes correspondentes. Se você tivesse a substância de um elefante, teria também os acidentes de um elefante. Para Aristóteles, se algo parecesse um pato, andasse como um pato e grasnasse como um pato, era um pato. A essência do objeto “pato” sempre produz os acidentes de um pato. Sempre que vemos os acidentes de um pato, sabemos que aquilo que não podemos ver no interior é a essência de um pato.
A igreja medieval do Ocidente adotou a tentativa filosófica de Aristóteles de definir a diferença entre percepção exterior e realidade profunda, para explicar a doutrina da transubstanciação. Disseram que na missa um milagre duplo acontecia. Por um lado, a substância do pão e do vinho muda na substância do corpo e do sangue de Cristo, enquanto, por outro lado, os acidentes permanecem os mesmos. O que isso significa? Antes do milagre, tem-se a substância do pão e os acidentes do pão, bem como a substância do vinho e os acidentes do vinho. Mas, depois do milagre, não se tem mais a substância do pão e a substância do vinho. Em vez disso, tem-se a substância do corpo e do sangue de Cristo, mas os acidentes do pão e do vinho permanecem. Em palavras diferentes, tem-se os acidentes do pão e do vinho sem as suas substâncias. O segundo milagre é visto em se ter a substância do corpo e do sangue de Cristo sem os acidentes da carne e do sangue. Esse é o sentido do milagre duplo. Tem-se a substância de uma coisa e os acidentes de outra. É importante notar que o próprio Aristóteles nunca teria admitido esta linha de pensamento no mundo real.
Há algumas décadas, houve na Europa Ocidental um teólogo católico romano, holandês, que publicou uma obra intitulada Cristo – o Sacramento do Encontro com Deus, na qual apresentou uma ideia completamente nova. Ele disse que no milagre da missa não acontece uma transformação sobrenatural da substância de uma coisa, na substância de outra. Não era transubstanciação, e sim, o que ele chamou de transignificação. Ele disse que, na missa, os elementos de pão e de vinho assumem uma significação celestial. Há uma mudança real na significação dos elementos, embora a natureza dos elementos permaneça a mesma. Na época, ele foi apoiado pelo catecismo holandês e por outros teólogos progressistas e criou a maior controvérsia dentro da Igreja Católica Romana. Em 1965, o papa publicou uma encíclica intitulada Mysterium Fidei, “O Mistério da Fé”, em que respondeu a esta questão e disse que não somente o conteúdo da doutrina histórica da igreja é imutável, mas também a sua formulação. Disse que a formulação aristotélica da transubstanciação continuará de pé. Essa continua sendo a posição oficial da Igreja Católica Romana. Esta encíclica rejeitou efetivamente soluções criativas oferecidas por quem abordasse o problema que viam na transubstanciação.
Lutero se opôs à transubstanciação, porque acreditava que ela envolvia um milagre desnecessário. Lutero acreditava que a carne e o sangue real de Jesus estavam presentes nos elementos, mas estavam em, com e sob eles. Os elementos não se tornam o corpo e o sangue de Cristo, mas, em vez disso, o corpo e o sangue de Cristo são acrescentados sobrenaturalmente aos elementos. Neste sentido, Lutero argumentava em favor da presença real do corpo e do sangue físico de Cristo.
Os reformados, como João Calvino e muitos outros, rejeitaram a opinião de Lutero, embora não com bases sacramentais, mas com bases cristológicas. No capítulo seguinte, procuraremos entender esta rejeição, ao considerarmos a natureza dual de Cristo.
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